domingo, 14 de maio de 2017

Um velho namorador


Ciduca Barros

Quando o conhecemos, Chatô já tinha mais de 50 anos de idade. Era funcionário do quadro funcional do Banco do Brasil, na cidade de Currais Novos (RN), e desempenhava o seu mister a contento. 
Era, também, uma pessoa humana de fácil trato e de muito bom humor. Ele tinha uma marca inconfundível: era um incorrigível conquistador de mulheres, mania que se tornou o pomo da discórdia entre ele e sua ciumenta esposa.
Ele possuía uma antiga Rural Willys, veículo que também usava em suas aventuras amorosas. Sua mulher, tentando coibir os seus namoricos, à noite saía a pé pelas ruas da cidade – era uma disputa desigual. Então, para despistar a marcação cerrada da mulher, o velho Chatô armou um excelente ardil: deixava a sua Rural na frente do cinema e partia, a pé, para suas libertinagens. A esposa, pensando que ele estava assistindo a um filme, cessava a sua busca e ia para casa, tranquilamente, assistir a sua novela. Isso durou até ela descobrir a astúcia do marido e voltar a caçá-lo.
Certa feita, a nossa agência foi visitada por um corretor de seguros, tentando vender apólices de seguro de vida. Com a autorização da Gerência, foi abordando cada funcionário até chegar a vez de Chatô.
– Não, obrigado, eu já tenho o pecúlio do Banco! – disse ele.
Mas o corretor insistiu:
– Quanto mais seguros, em caso do seu desaparecimento, mais garantida a sua família ficará.
O velho não aceitava os argumentos do vendedor:
– Eu já estou muito onerado, não quero aumentar as minhas despesas.
E o corretor resolveu jogar a sua última cartada:
– Nesse caso, faça um seguro para sua esposa. Se ela morrer, você receberá uma bolada.
Então ele fez uma afirmação que jamais esquecemos:
– Meu amigo, se a desgraçada daquela velha morrer, eu já me considero premiado!

Escritor, funcionário aposentado do Banco do Brasil e colaborador do Bar de Ferreirinha
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