domingo, 7 de maio de 2017

Cochichando no ônibus

Ciduca Barros

Comenta-se que o povo lá de “nóis” fala muito alto. Eu concordo. A propósito, muitos de meus leitores sabem que este assunto já foi até um dos capítulos de um dos meus livros – SERIDÓ – UMA NAÇÃO DIVERTIDA (capítulo 2, “Por que o caicoense fala tão alto?”) –, em que desenvolvi a minha tese sobre este fenômeno. Os decibéis a mais que o povo do Seridó imprime em sua voz vêm acarretando muitas histórias hilariantes. Aqui está uma delas.
Uma senhora seridoense entrou num ônibus urbano em Natal. Como o busão estava lotado, ela ficou lá na frente. Coincidentemente, lá no fundo do coletivo, também em pé, ia uma comadre sua, pessoa também da terrinha. 
As duas se viram e, apesar da distância (e do barulho da viatura) que as separava, engataram um papo descontraído e acompanhado por uma plateia atenta, composta pelos passageiros, além do motorista e do cobrador, é claro.
– Tá tudo bem, minha comadre?
– Tudo bem, mulher. E com você?
O ônibus transitando, subindo rua, descendo rua, parando, arrancando de novo e o papo fluindo, audível para elas e para os demais.
– Você tem ido a nossa terrinha, mulher?
– Estive lá na Festa de Sant'Ana, minha comadre. 
E resolveram entrar em assunto de família, o que tornou a conversa bem mais interessante para os ouvintes:
– Como vai minha afilhada, comadre?
– Está se separando do marido. Você não sabia?
– Verdade? Por quê, meu Deus do céu?
– O marido dela queria uma coisa que ela não queria dar.
– Vige, mulher! O que era?
– Ahh, comadre! Daqui eu não posso dizer, não. Vamos ver se a gente consegue ficar mais próximas.
E cada uma, por sua vez, foram pedindo licença às demais pessoas e foram se avizinhando. Os outros passageiros (e o motorista e o cobrador, é claro) interessados no papo, logicamente foram ajudando na aproximação das duas.             Quando as duas estavam lado a lado, com as mãos em forma de concha, a comadre cochichou no ouvido da outra o motivo da separação. 
Naquele momento, o silêncio que se fazia dentro do ônibus era sepulcral, sem contar que os olhares (e os ouvidos) de todos estavam pregados nelas.
A comadre que ouviu a confidência do motivo da separação conjugal da afilhada afastou-se um pouco da outra, arregalou os olhos e com a sua potente voz do Seridó externou toda a sua indignação:
– A bunda???
Escritor, funcionário aposentado do Banco do Brasil e colaborador do Bar de Ferreirinha
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