sábado, 15 de abril de 2017

Teus medos,meus medos

JULIANO MARTINZ
Medo é contagioso. Contagia como um inferno. Pelo menos em casos como o meu, em que minha coragem já possui baixíssima imunidade. Dizem que compartilhar seus medos pode lhe fazer trazer benefícios. Pelo contrário, faz com que o outro se sinta pior. Há pessoas que se ouvirem sobre uma remota possibilidade de um meteorito cair sobre sua cabeça, passarão o resto do dia a vigiar o céu, de 5 em 5 minutos.
Foi assim comigo, dezembro passado, espremido entre um trêmulo oriental e a pequenina janela do avião. Procurava me ajeitar no espaço reduzido para um cochilo tranquilo, quando o sujeitinho do lado pronunciou a maldita frase:
– Essa porcaria vai cair.
Um homem-bomba? Olhei de lado e vi que o coitado estava se borrando. Percebendo logo que não se tratava de um suicida, perguntei:
– Primeira vez?
– Tô mais preocupado se vai ser a última.
Procurei sorrir e confortá-lo:
– Relaxa. Viajar de avião é mais seguro que andar de carro ou a pé.
– Ah é? Caiu um  semana passada, você viu?
– Sim. Dos mais de 500 mil que levantaram voo naquele dia – Chutei uma estatística qualquer.
– De que adianta 499.999 chegarem ao destino, se o MEU resolver cair?
Eu dei risada e completei:
– Ei, não seja egoísta. Não é seu, é NOSSO avião. Se você se esborrachar, eu vou junto.
Ri novamente, mas ele não achou graça. Ficou me olhando com uma expressão reprovadora pela piada fora de hora, e o que me restou foi ficar com aquela expressão tosca. Tratei de voltar logo ao campo da conversa séria:
– Escute. Procure respirar fundo, e mantenha a mente em coisas positivas. Você é casado?
– Quer saber se vou deixar viúva?
– Ei cara, não exagere. Escute: é normal sentir medo. Você precisa apenas controlá-lo. Feche os olhos e…
– Fechar os olhos? Só falta me pedir pra dormir.
– Não seria uma má ideia.
– Sabia que a dor é maior quando você sofre um impacto enquanto está dormindo?
– Não.
– Quando você está acordado, e sofre uma lesão, você contrai os músculos, e isso minimiza a dor. Dormindo, além do susto, você está com os músculos relaxados e isso intensifica o sofrimento. Se for pra me esfarelar lá embaixo, quero estar de olhos bem abertos.
– Mas se você virar pedaços enquanto está dormindo, nem dará tempo de sentir dor.
Ele se inclinou pro meu lado e sussurrou, como se estivesse contando um segredo, a voz lúgubre:
– O cérebro continua enviando sinais de dor por alguns segundos. Você sofre como um porco sendo esquartejado por um machado.
– Onde você ouviu isso?
– Um programa lá sobre essas coisas de cérebro e tals. Tinha um médico dessas coisas lá falando isso.
De repente, perdi a vontade dormir.
Instantes depois, ele continuou:
– Olha como ele balança.
– Mas isso é a turbulência.
– Mas tá balançando demais. Isso não é normal.
– Será?
– Eu vi uma pesquisa não sei aonde dum cara lá que falou que não sei porque que balança e cai. E o cara era especialista.
– Especialista em…?
– Ah, nesses troços de avião.
– Era mesmo?
– PhD.
– Putz.
Foram 20 minutos, os mais longos de minha vida, até que para meu alívio e sobrevivência de todos,  o avião pousou sem problemas. Na saída, o japa atormentado ainda arrematou:
– É, dessa vez escapamos.  – E pela primeira vez em nosso desagradável encontro, sorriu. Eu –  sério como um búfalo.
O psicótico deve ter ido pegar um táxi, pela expressão de alívio. Quanto a mim, ainda tinha que pegar uma conexão. E as palavras do cidadão me acompanhavam.
Na outra aeronave, já acomodado, não estava com sono, nem com vontade ler, ou qualquer coisa que o valha. Assim que levantamos voo, olhei para um tranquilo senhor, sentado ao meu lado. Percebendo que eu não estava lá muito bem, ele me perguntou:
– Está com algum problema, filho?
Após engolir em seco, arrematei:
– Não sei não, cara. Mas acho que essa porcaria vai cair.

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