domingo, 23 de abril de 2017

Severino Carestia


Ciduca Barros

Esta história jamais poderia ocorrer nos dias atuais. 
Com estradas asfaltadas e carros modernos e velozes, a impressão que se tem é que as distâncias ficaram reduzidas.
Assim, as pessoas que residem no Seridó podem sair de suas cidades após o café da manhã, resolver os seus assuntos em Natal (ou Campina Grande) e voltar para jantar em casa. Antigamente, sem as condições atuais, a coisa era diferente. O morador do Seridó partia antes do nascer do sol, tomava o café da manhã num hotel qualquer do caminho e, quando muito, conseguia chegar em sua casa noite alta. 
Então, naquela época difícil, um cidadão tinha um pequeno restaurante numa cidade do Seridó onde muitos viajantes, à procura de Campina Grande, faziam suas refeições.  Severino Carestia era o seu nome, que, logicamente, dispensa explicações ao seu apelido. Aquele pequeno comerciante, principalmente para os desconhecidos, botava “pra lascar” nas contas.
Numa bela manhã, quatro sujeitos, que ele não conhecia, entraram no seu estabelecimento e pediram o café da manhã. Comeram e depois pediram a conta, pagaram e seguiram viagem. Seu Severino Carestia, que estava inspiradíssimo naquele dia, superfaturou a despesa. 
Na estrada, um dos viajantes caiu na real e comentou:
– Parece que aquele velho do restaurante nos roubou!
E os demais, depois de refazerem as contas, concordaram. Um deles bolou um revide e explicou aos demais:
– Na volta, vamos assustar aquele explorador. 
Passava das 18h quando seu Severino reconheceu o carro dos forasteiros parando em frente ao seu restaurante. 
Os sujeitos entraram, foram ao banheiro, lavaram as mãos, procuraram uma mesa de canto e, com o cabo dos revólveres à vista, pediram num tom de voz pouco amistoso:
– Jantar reforçado!
Os caras jantaram sempre de cara feia. Pediram outros pratos. Devolveram alguns, sob as mais diversas alegações, ou seja, acintosamente, abusaram. 
Severino, silente, cumpriu todas as reivindicações. Quando terminaram, um deles, alisando o cabo da sua arma, gritou:
– Traga a porra da conta, velhote!
– Já está paga – respondeu Severino, com a voz tremida. 
Os viajantes estranharam. Foi um copo de água fria na cabeça deles. E o mais exaltado perguntou:
– E quem pagou?
Severino Carestia, que não era bobo nem nada, sabendo o que tinha “aprontado” pela manhã e havendo percebido a provocação desde o início, humildemente, respondeu:
– Os senhores, hoje pela manhã quando passaram!

Escritor, funcionário aposentado do Banco do Brasil e colaborador do Bar de Ferreirinha
Postar um comentário