domingo, 16 de abril de 2017

A braguilha suspeita


Ciduca Barros

Ele teve a sua infância interrompida por uma doença oncológica. 
A sua família humilde da cidade de Caicó teve a rotina radicalmente alterada por causa do seu problema de saúde. 
A cidade grande, hospitais, médicos, exames e medicamentos passaram a ser corriqueiros em sua vida.
O seu tumor era operável, mas por estar localizado em órgão vital seria temerário operá-lo em Natal. 
A sua cirurgia teria que ser realizada em São Paulo. 
Isto gerou mais tumulto e apreensões para a sua família que, pela sua simplicidade, já se sentia desconfortável em Natal, pior seria naquela metrópole. 
A instituição que o assistia, a exemplo do que já fizera com outros garotos, providenciou o seu traslado e do seu acompanhante, sua hospedagem, internação e cirurgia. 
Foi operado com êxito e ali permaneceram alguns dias.
Não deve ter sido fácil, para a sua cabeça, toda aquela nova experiência: viajar de avião, grande e movimentado aeroporto, agitação da metrópole, gigantesco hospital e muita gente. 
Viu e ouviu muita coisa. Junto com os seus temores vieram também o fascínio e a admiração por tudo aquilo. 
Ele ficou rico de fatos que ali viu e de experiências pelas quais passou.
Não é necessário rogar para ele contar a sua história mais engraçada. 
O fato se passou no famoso Aeroporto de Congonhas, já no seu retorno para Natal.
Tento reproduzir aqui a sua maneira simples e até meio jeca de relatar a situação cômica:
– “Nóis vinha vortando de São Paulo. Quando cheguemo no aeroporto qui fomo passá naquela porta que fica a poliça federá, deu o maior rolo. Quando passei, a porta apitô adoidada e me barraro. Mandaro eu vortá e passá de novo e tome apito. Daí veio um poliça que passô aquela coisa no meu corpo e aí é qui a danada da máquina gritava. Ai, meu Deus, eu já pensava que era uma guerra. E juntou povo. E a fila aumentô. Depois de várias veiz, descobriro: a minha braguia* tava aberta”.

*Braguia – corruptela de braguilha ou barguilha, também conhecida como fecho ecler, zíper, ou, no Nordeste brasileiro, ri-ri, que é a abertura dianteira de qualquer calça, calção, ceroula, etc.

Escritor, funcionário aposentado do Banco do Brasil e colaborador do Bar de Ferreirinha
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