terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Multiplicando o dinheiro

Ivar Hartmann


Estou em uma loja do outlet, vazia àquela hora da manhã, e chega uma funcionária da administração central com um carrinho fechado. “Quantos vocês são?” pergunta ela. “Cinco!” responde o funcionário que me atendia. Ela abre o carro e começa a contar panetones para serem presenteados aos que trabalham na loja. Logo falo: “Não somos cinco, somos seis!” Ela para, me olha, entende a graça, pois a loja estava vazia e retruca: “É são seis. O senhor também merece!” E ganho um bolo que o funcionário me entrega em uma sacola. Saio faceiro com o presente inesperado. Agora, como nos filmes e romances, vamos voltar algumas décadas. Acadêmico de direito e inexperiente, fui trabalhar como secretário do município de Iraí. O prefeito (que depois virou eterno) era o Pigatto. Experiente mas pouco instruído. Somou-se o letrado ao iletrado e o inexperiente ao experiente e tivemos vários anos de convivência fraterna e profícua na Prefeitura. Só que, hoje sei, mas na época não, vale mais a prática que a gramática. Fazer o que, todo jovem crê e jura que sabe mais que pais, professores e patrões. Somos injustiçados quando jovens. De meu tempo em Iraí e do Pigatto, lembro-me de uma única frase que aprendi com ele. Que nem meu pai, nem minha mãe, crentes alemães, poderiam produzir. Dizia o prefeito: “Ivar, vamos encher de pedidos estas secretarias estaduais, qualquer coisa que tu fique sabendo que estão distribuindo, vamos pedir também!” E rematou com minha frase guia desde então: “Ninguém fica pobre por pedir!”
Pensando bem, uma frase pequena, tosca, mas forte. E pedir no dia a dia equivale-se a pedir desconto nas compras, sejam quais forem. Antes de mostrar o dinheiro, antes de mostrar deslumbramento com o produto ou preço, é certo que o vendedor tem sempre uma margem para negociar. E, quando não ele, o gerente. Alguém vai deixar um cliente ir embora sem comprar a roupa ou eletrodoméstico por um desconto que nada mais é que uma pequena parte de seu lucro? Com o “ninguém fica pobre por pedir” peço desconto em tudo que compro, todos os dias. É só não ter vergonha. Estamos no início do ano, assim é fácil lembrar. Ganhei desconto de noventa centavos (imaginem!) na farmácia, três reais nas pilhas e vinte por cento em uma consulta de saúde. E irei somando ao longo do ano. Dez ganhos no desconto valem vinte, pois ficam disponíveis para outra despesa.
ivar4hartmann@gmail.com
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