domingo, 27 de novembro de 2016

Sequilhinho, o casto


Ciduca Barros

Venderam a imagem de que todo seridoense é agoniado. Errado. Lá, como em qualquer lugar do mundo, existem pessoas de todas as maneiras e jeitos, inclusive os “vexados” do juízo. 
Talvez, pelo fato de a maioria jogar no time dos aloprados, provavelmente em consequência do forte calor abrasador do sertão, o restante (que é a minoria) paga o pato.
Por incrível que pareça, o sujeito mais calmo e sereno que já pisou no solo do Seridó era um caicoense. Ele era uma pessoa humilde, pobre e quase simplória que, para sobreviver, vendia sequilhos de porta em porta. 
Sequilhinho, o zen
Muito amável, oferecia sempre o seu produto de uma maneira agradável:
– Estrelinhas do céu, vão comprar sequilhos hoje?
– Vai querer sequilhos, pessoinha de Jesus?
Não sabemos o seu nome verdadeiro, mas por se dirigir a todos no diminutivo, passaram a chamá-lo de Sequilhinho. Ele era, realmente, um doce de pessoa e jamais alguém o viu de mau humor ou proferindo um palavrão.
Sequilhinho nos fazia lembrar as “bem-aventuranças” citadas na Bíblia Sagrada (Mateus 5.1), principalmente os versículos Mateus 5.1.5 e 8, respectivamente:  
“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” e “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus”. 
Sendo ele puro e manso, passou a ser um desafio para os escarnecedores da sua terra fazê-lo sair da sua aura de santidade. 
As pessoas tentavam desestabilizá-lo, ou seja, em vão provocavam Sequilhinho a sair da sua auréola de beatitude
Certa vez, ele adentrou uma oficina mecânica lá de Caicó e, educadamente, ofereceu o seu produto. 
Um dos mecânicos, grosseiramente, olhou pra ele e gritou:
– Vá oferecer essa merda pra sua mãe!
Candidamente, ele disse:
– Eu, não!!! É mãe quem faz!!!
Um dia, alguém mais desbocado exagerou:
– Sequilhinho, me dê a bunda! – foi a proposta indecente.
Sem sair da sua pureza, com a aquela voz macia e calma daqueles que estão sempre em paz com Deus e com os homens, ele respondeu:
– Por que você quer a minha? Você não tem a sua?!

Escritor, funcionário aposentado do Banco do Brasil e colaborador do Bar de Ferreirinha
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