quarta-feira, 11 de maio de 2016

Um velho casarão cheio de memórias


Ciduca Barros

Um autêntico casarão do Seridó antigo. Casarão que tinha a sua cumeeira alta para amenizar o calor do sertão, consequentemente, aproveitando para construir um sótão. Velho casarão construído com suas paredes largas para enfrentar as intempéries que o implacável tempo lhe reservava. Esta casa é centenária. Daí, nesse lapso de mais de 100 anos de quantas histórias ela foi palco? Quantas histórias ela ouviu? Quantos casos ela viu? De quantas alegrias e vitórias ela foi testemunha? De quantas tristezas, derrotas e angústias ela participou?
Ela, possivelmente, foi construída no final do Século XIX ou inicio do Século XX. Provavelmente, atravessou as incertezas e as dores de duas guerras mundiais – a primeira 1914/1918 e a segunda 1940/1945. Alguns de seus moradores, sem nenhuma dúvida, temeram Lampião e seu famigerado bando – 1922/1938. Certamente, também ficaram aflitos com os boatos da passagem da Coluna Prestes (1925/1927), movimento militar armado que assustou o Brasil de Norte a Sul. 
O Brasil, no início da década de 1930, viveu um período de grande agitação política e, certamente, através de um rádio a bateria carregada por um catavento (energia eólica) ou mesmo através de uma simples galena, alguns de seus habitantes acompanharam as Revoluções Constitucionalistas de 1932 e de 1935, outro período de grande efeverscência política. 
Este velho e misterioso casarão e muitos de seus antigos moradores, viram a pujança do algodão Mocó, que foi, durante muito tempo, a redenção financeira do sertão do Seridó, bem como, seus últimos residentes também viram, com tristeza e revolta, o bicudo chegar e destruir (com o beneplácito dos nossos governantes) toda uma economia de uma vasta região - coisas de um Brasil sempre abandonado e desassistido.
Seu secular telhado suportou grandes invernos. Numa contrapartida negativa, suas antigas paredes foram assoladas por ventos e poeiras de secas inclementes, inclusive a de 1915, magistralmente relatada em livro por Rachel de Queiroz, grande escritora cearense, bem como a grande estiagem de 1958, que eu, ainda um adolescente, também vi e senti na pele.
Quantas pessoas habitaram ali? Quantas o velho casarão viu nascer? Quantas delas ele assistiu morrer? Quantas foram felizes? Quantas venceram na vida? Quantas fracassaram? Quantas delas tinham talentos especiais que jamais foram explorados? Quantas delas guardaram segredos que foram sepultados com elas?  
Católicos apostólicos romanos, como a maioria do povo do Seridó, certamente todos os moradores deste velho casarão veneraram Padre Cícero e Frei Damião, sem contar com as inúmeras preces feitas à Sant'Ana e outras santas (inclusive Maria, nossa mãe maior). Quantos dos seus moradores jogaram seus joelhos ao chão pedindo proteção para os seus filhos e chuvas, as benditas chuvas, que sem elas o sertão não teria vida? 
Não sabemos como eram as suas paredes internas, mas, certamente, sempre estiveram com as implacáveis fotografias dos ancestrais da família, com seus calendários (folhinhas do ano ou cromos) assinalando inexoravelmente o tempo que urgia e também eram permeadas de imagens de santos e santas e tinha, indubitavelmente, num canto da sala, o seu velho oratório (com mais santos, rosários e fitas) que tanto significado sempre teve para o nosso religioso povo seridoense.
Será que este remoto casarão, no auge de sua existência, não teria um relógio de parede, marcando as horas que voaram celeremente levando com elas as esperanças, as angústias e os anseios dos seus moradores? Não teria sido esse mesmo relógio de parede, que marcando as implacáveis horas, num átimo completou um século, envelhecendo e levando com o seu tique-taque todos os seus moradores, deixando para sempre o velho casarão sozinho e abandonado?  
Todas estas perguntas – e muitas que gostaríamos de fazer – só poderiam ser respondidas pelo velho e arruinado casarão, mas, infelizmente, ele se recusa a contar a sua versão da história, quem sabe talvez para não magoar as feridas indeléveis que são visíveis em suas paredes.
As cicatrizes na estrutura deste velho casarão, talvez sejam menores de que as chagas que as saudades de seus antigos moradores deixaram em suas memórias. 
Respeitemos o seu silêncio sepulcral, pois!

Escritor, funcionário aposentado do Banco do Brasil e colaborador do Bar de Ferreirinha.
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