segunda-feira, 22 de março de 2010

CONVERSA DE BAR

Cachaça sob pressão 
Arakén Almeida*

No final da década de 60 Caicó vivia um clima de tensão sem precedentes, não devido à repressão política ou à ditadura militar, mas a uma série de assassinatos de figuras ilustres que repercutia muito além das fronteiras potiguares.
Berto Barbeiro já havia prestado contas das suas ideias comunistas e o movimento estudantil era fraco politicamente, com raríssimas exceções.
Embora a televisão ainda não houvesse invadido as residências, pois só chegaria na copa de 70, não faltavam programas para preencher o início das noites (hoje happy hour): sessão de “leros” defronte ao cine Rio Branco (a maior tela do nordeste), e ao cine São Francisco, “papo furado” na esquina da casa Santa Terezinha, na calçada do extinto prédio do Bandern, na praça da matriz e nos barracos no entorno do mercado, jogo de sinuca no salão de Zé Pedro ou Luiz Néri e outros mais.
Também, a frequência nos bares, entre eles o de “Seo Antoin” era uma rotina consagrada pela rapazeada (hoje galera).
E mais: como não poderia deixar de existir, o cabaré fazia parte desse contexto sociológico!
Pois bem. Num belo dia encontrei-me com Dedé de Pedo, também conhecido como Sopa de Osso, ou Sopança (in memoriam) no bar de Seo Luiz, ali vizinho à torrefação Bangu.
Após algumas doses cachaça, não sei se por efervescência sexual da adolescência (estávamos aí pelos 14 -15 anos) ou para dar evasão aos nossos instintos sob ação do álcool, decidimos ir ao cabaré.
Seguimos adiante, ávidos pelos prazeres que o sexo ia nos proporcionar apesar da nossa inexperiência nessa área.
Elucrubações mil permeavam nossas mentes, quando em frente a bodega do glorioso Julião Teixeira, resolvemos tomar mais duas “canas”.
Subimos os dois degraus das portas principais anunciando:
- Julião, duas “canas”!
O lendário dono da bodega colocando dois copos de fundo grosso no balcão, assentiu.
- Meninos, tão na farra, né? Hummmm!
O inusitado estava para acontecer.
No momento em que Julião trazia da geladeira a garrafa de cachaça para servir-nos, o temido tenente Libório, delegado da cidade, adentrava ao recinto bradando:
- Julião, você vai vender bebida a menores? Não é possível!
Eu e Sopança, cabisbaixos, fitávamos de soslaio a Rural Willys verde e branca do delegado com um cão pastor alemão no banco traseiro, estacionada na frente da bodega.
Julião humildemente respondeu.
- Tá certo, delegado. Muito bem!
Foi o delegado se retirando, a cena inicial se repetindo, nós debochando da ocasião e Julião comentando que isto era uma besteira.
Vai, sim, nos vender cachaça.
O delegado armara uma arapuca: deu a volta no quarteirão e, desta vez, flagrou eu e Sopança cada um com um copo de cachaça na mão.
Desta vez, adentrou ao recinto esbravejando:
- Julião, você um homem velho, desrespeitando a lei. Você  pode ser preso! Vou dispensar desta vez, mas não repita! 
Virou-se para mim e Sopança, e ordenou:
- Derramem essa cachaça, logo. Vão para suas casas, imediatamente!
O bravo e respeitado dono da bodega, retrucou.
- Delegado, esses meninos são de família. Estão só brincando. Né assim, não.
Não havia outra saída, automaticamente derramamos o precioso líquido sob o olhar carrancudo do delegado retornando para o seu carro.
Logo em seguida, saindo da bodega como dois jogadores que não admitem o insucesso, interrogamos:
- Vamos seguir, ou não? E se ele nos pegar novamente? e, mais ainda no cabaré? Ah! Entramos na fogueira temos que nos queimar. Vamos embora.
Em poucos minutos estávamos fogosos e bastante alegres no famoso cabaré  de Ana Raposa, tomando cerveja de graça nas mesas de adultos conhecidos (não merecem citações) e brincando com as “meninas”.
Mas, em alguns momentos, acendia uma luz na cabeça, no labirinto da consciência, na área do medo: como voltar pra casa?
O receio de novo flagrante do delegado era assustador.
Para encerrar, até hoje, mesmo sóbrio, não consegui bater o recorde de velocidade em “pedestrianismo etílico” numa distância equivalente entre o cabaré e a minha casa no bairro do acampamento.

*Médico, cachaceiro e membro do Conselho Editorial do Bar de Ferreirinha
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