segunda-feira, 15 de março de 2010

CONVERSA DE BAR

Olho no olho
Orlando Caboré Rodrigues

Xexéu e João Melquíades, tetê a tetê: o bar de um ficava de frente à lanchonete do outro, eram grandes amigos, mas…diferiam um pouco no tratamento aos fregueses.
Paradoxais!
O primeiro,  extrovertido, gastador compulsivo, “um administrador de mancheia”: abriu e faliu vários bares.
Verdadeiro Clube do Bolinha, um dia uma mulher entra no bar e surpreende Xexéu retirando uma manta de carne de sol de uma sacola e, de imediato, pondo no fogo para assá-la.
A intrusa:
- Vixe, que sujeira! O senhor sequer lavou a carne!
Xexa, rápido no gatilho, devolve a ofensa:
- A senhora, por exemplo, já comprou pão lavado?
Xexéu, de outra feita, assava queijo de coalho. 
O coronel Benedito Queiroz, da PM, freguês assíduo, arrisca:
- Só compro o queijo depois de experimentá-lo…
Veja a pérola de resposta:
- Amigo, quando você vai comprar sabão come uma fatia também?
Do outro lado da avenida Coronel Martiniano, João Melquíades recebe quase uma centena de mossoroenses que foram a Caicó marcar um super bingo, inclusive o prêmio principal é um caminhão.
Os visitantes fazem o pedido:
- Tem  uma loura suada e estupidamente gelada, aí, meu tio?
Olhar de seca pimenteira, ele descarrega todo o seu estresse nos infelizes:
- Primeiro, fica bem claro que não sou tio de toda bosta que me aparece. Segundo, não existe cerveja com esse nome. Portanto, vocês só podem ser de Mossoró, que é a terra da besteira!
Perdeu o equivalente a uma clientela de um mês…

Xexo em versos
Certa vez, passamos a noite em claro, lavando o peritônio na rua de baixo, com as primas…
Dia amanhecendo, chegamos aos barracos em torno do Mercado Municipal. 
O poeta Chico Cambitinha, descarado,  saúda a proprietária:
“Maria de Tibúrcio/
Bote aí, quatro café/ 
Pra Chico, Pirrolô/
Três Orelhas e Caboré!
Café, pão e bolo/
E tudo que tiver!”
A barraqueira, que era uma barraqueira de verdade, muniu-se de um bule de água quente e pôs a “quadrilha” pra correr:
- Vão embora, seus frescos. Se não eu chamo Manélamanço!
Mané Amâncio passava a noite rodeando os barracos do centro da cidade à procura de suas caças prediletas: os bêbados!
Voz de veludo, ele atacava as suas presas na maior cara de pau:
- Meninada, podem encher a cara que levo vocês pra casa!
Nairobi, necas de nadica: ele colocava os bêbados nas costas e levava para as margens do rio Seridó, ali pertinho... Então, fazia o serviço completo…
Era o terror da noite. 
Tanto que, quando um bebum extrapolava, o dono do boteco o ameaçava:
- Vá se aquietando aí, bichinho, se não eu chamo “seu Mané”!
 Xaprão, porém, pregou uma peça ao taradão: se fez de morto!
Mané Amâncio:
- Coitado, vou logo deixar ele no cemitério, pertinho donde mora.
Em lá chegando (eu gosto!), o predador coloca cuidadosamente e presa no chão, mas é surpreendido: Xaprão está vivinho da silva e, pasmem, sóbrio. 
Ainda gozou com o lombador de papudinhos:
- Brigadim, seu Mané, pela carona!
Falando em Xaprão, ele tanto pede como chora, por qualquer motivo.
Atacou uma turma de funcionários da Caixa Econômica que bebia no bar de Zeca Barrão. 
Bebeu, comeu e ainda pediu dinheiro e cigarros.
Marreta, economiário,  entregou-lhe um cigarro:
- Taí, Xaprão, agora tire o time, senão você vai terminar pedindo o cu da gente!
Xaprão recebeu, mas caiu no choro:
- E você só não me dá porque sou pobre!
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