segunda-feira, 8 de março de 2010

CONVERSA DE BAR

O pau de merda
Airton Prikitim Dias*

A data de encerramento da Festa de Sant'Ana de Caicó é o dia mais importante do ano na cidade.
O 7 de Setembro, o Dia de Finados ou a Sexta-feira Santa – datas importantes e solenes – não merecem, para o caicoense, um terço da atenção e pompa dedicadas à Procissão de Encerramento da padroeira Sant’Ana, avó de Jesus e dos nativos.
É um dia especial em todos os sentidos: a melhor roupa fica reservada para o cortejo, o almoço é de galinha caipira, espinhaço de porco torrado e bode assado, os doentes ficam sãos, os avarentos dão boas esmolas, os bêbados não bebem, o jogador dispensa o carteado, não tem corrida do jogo do bicho... E por aí vai.
Até o cabaré fecha.
Todos se preparam para o grande dia e seguem a recomendação sugerida pelo Padre Antenor Salvino, o eterno vigário de Sant’Ana: vestes brancas na procissão e na Missa de Encerramento, simbolizando a união da família e a paz entre todos os caicoenses.
E assim, sob a grave e pesada carga de responsabilidade que a Procissão de Sant’Ana nos impunha, estávamos eu e Antônio Véras (Cafusca) aguardando o início do cortejo, exatamente entre a casa de dona Maria Vale e o coreto, na Praça da Liberdade.
Cafusca não conseguia ficar quieto nem esperando a Procissão!
Ardiloso e bagunceiro, chamou-me e propôs:
- Airton, vamos simular uma briga e pegar um otário com o pau de merda?
- Só se for agora, antes da procissão.
O pau de merda é uma brincadeira sacana: dois fingem brigar, um segurando um cabo de vassoura melado de bosta, e o outro sem nada.
Depois de insultos recíprocos, o brigão que está sem nada ameaça desistir se o adversário não entregar o pau a alguém.
Não falha nunca.
Dito e feito, fui ao beco de Zé Ioiô, lambuzei um cabo de vassoura com um tolete que parecia um mourão de tão grande e grosso, parido ali na escuridão da noite anterior por algum bêbado.
Voltei à Praça da Liberdade onde a multidão aguardava o início do cortejo solene para o encerramento da Festa de Sant’Ana.
Ainda não havia a vítima pra segurar o pau.
Até que, de repente, aparece Tarcísio Melo, o Vaca Véa, mais arrumado do que padrinho de casamento: meia branca, bermuda e camisa de linho imaculadamente brancas e engomadas e um sapato preto novo que espelhava de tão lustrado.
Olhei na direção de Cafusca com um risinho no canto da boca, e começamos a briga fajuta, a simulação, o teatro.
Cafusca era maior, e partiu para o “ataque”.
Eu me defendi ameaçando bater nele com o cabo de vassoura.
Cafusca provoca:
- Você só é brabo porque está com esse cabo de vassoura. Solte e venha pro braço se for homem...
No sertão não há insulto maior do que alguém colocar em dúvida a masculinidade de um macho, mesmo que seja de brincadeira.
E começou a juntar gente – a nossa simulação era perfeita.
Formaram um círculo ao nosso redor, e Vaca Véa lá, assistindo e esperando o desfecho da briga.
Então eu disse:
- Vaca Véa, esse bosta desse Cafusca tá com medo. Segure aqui esse cabo de vassoura que eu vou dar uma surra nesse feladaputa, vou mostrar que ele não vale nem o que o gato enterra!
E estendi o cabo de vassoura na sua direção.
Ele, sem desconfiar de nada, segurou com muita firmeza, bem no meio, ansioso para ver uma briga memorável, de cachorro grande.
Como um raio, eu puxei o cabo de volta e dois montinhos de merda ficaram pregados nas mãos dele.
Era o fim da briga - ou melhor, da simulação.
Às gargalhadas, eu e Cafusca corremos e subimos o coreto.
Vaca Véa ficou puto da vida porque, além de não ter ido à procissão, ainda levou uma surra da mãe quando voltou pra casa.

*Empresário, cliente e leitor do Bar de Ferreirinha
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