segunda-feira, 1 de março de 2010

CONVERSA DE BAR

Lampião ou Lamparina?
Gibson Azevedo da Costa*
                                           
Valdemar Sales, sujeito experiente, homem vivido - já dobrou o "cabo da boa esperança" -, possui um excelente vigor físico e mental.
Sempre de bom humor, frequenta com certa assiduidade a cantina de Mário Barbosa, pitoresca taverna situada nas cercanias de sua vivenda, na área suburbana clássica do Barro Vermelho, próximo ao centro de Natal.
Esta muito bem conceituada birosca, é regularmente visitada por uma leva respeitável de pessoas da classe média!
Valdemar, fumante inveterado, não aceita críticas ao seu vício.
E quando compra seus maços de cigarro, exibe, com ares de esperteza, as tarjas de advertência obrigatória, nas quais, o Ministério da Saúde, lembra que, o hábito de fumar, pode levar o fumante à morte por câncer de pulmão, infarto do miocárdio;  etc., etc., etc.
Os que anunciam "impotência sexual nos homens", são refugados: nesta "gelada" ele não entra!
Juntemos a este cidadão uma aparência séria, acentuada pela prótese ocular e uma calvície que o acompanha de priscas datas, que teremos um indivíduo assaz engraçado, na forma natural de existir.
Corroborando com a tese que, "todo papaco tem seu dia de dadaco", Valdemar, afirma com convicção, com a autoridade de quem leu reportagens científicas e estudos arqueológicos recentes: Lampião, o todo poderoso Rei do Cangaço, era viado, queimava a rosquinha, escorregava no quiabo!
Entre os fregueses contumazes da cantina, Teixeirinha e o tio "Seu" Luciano.
O primeiro, mudo por escolha, é avaro com as palavras.
O segundo, é fã incondicional das aventuras daquele facínora.
Se o "Seu" Luciano não protestasse, Valdemar não teria fôlego para descrever, com minúcias, estórias contadas por ancestrais e demonstrar evidências que levam a acreditar que o tal hornern era a "louca do cangaço".
- Olhe Luciano - ponderava Valdemar -, o pervertido bordava, costurava, fazia crochê, brocados, trabalhos delicados em couro e umas outras tantas coisas de habilidade feminina. Todo moiçola, usava muitos anéis nos dedos, meias de seda e perfume francês. Espelhos e vidros coloridos enfeitavam suas vestes e chapelões. E, para completar o quadro ambíguo, folgava no uso de gestos e condutas teatrais.
Segundo Valdemar, Lampião era contador de vantagem e mexeriqueiro como todo bom pederasta.
Além do mais - dizia ele - a medicina provou que ele era viado através de um exame minucioso da sua arcada dentária.
"Seu" Luciano, enfurecido com o assunto, esbraveja: "Uma calúnia desta não pode ser verdade, respeitemos à memória dos que já se foram, não fica bem injuriá-los", etc., etc., etc.
E Valdemar argumenta:
- Luciano!, o "bofe" dele era um tal de Mão de Pilão, que tinha esse apelido por causa do tamanho exagerado do pau.
Enquanto "Seu" Luciano, apoquentado com o tema, prepara-se para evadir-se, Valdemar segue contando que naquele tempo, o cangaceiro deitava-se numa rede espreguiçando-se qual urna gata no cio, e gritava para o "caso" dele:
- Pilão! Se avexe, cabra da peste! Se achêgue, pra fazer seboseira nos meus quartos!
Quando seu Luciano, visivelmente irritado, faz menção de levantar-se, Valdemar arremata:
- A medicina é parada, descobre os podres do passado até da Mãe do Calor de Figo! Esse tal de Lampião, um boiola, agora é uma humilde Lamparina.

*Escritor e poeta
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