segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Noite de moqueca

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Jorge Amado

A jia saltara para o peito de Quincas. Ele a admirava, não tardou
 a guardá-la no bolso do velho paletó sebento.
A lua cresceu sobre a cidade e as águas, a lua da Bahia em seu
desparrame de prata entrou pela janela. Veio com ela o
vento do mar, apagou as velas, já não se via o caixão.
Melodia de violões andava pela ladeira, voz de mulher cantando
penas de amor. Cabo Martim começou também a cantar.
– Ele adora ouvir uma cantiga...
Cantavam os quatro, a voz de baixo do Negro Pastinha ia
perder-se mais além da ladeira, no rumo dos saveiros. 
Bebiam e cantavam. Quincas não perdia nem um gole,
nem um som, gostava de cantigas.
Quando já estavam fartos de tanto cantar, Curió perguntou:
– Não era hoje de noite a moqueca de Mestre Manuel?
– Hoje mesmo. Moqueca de arraia – acentuou Pé-de-Vento.
– Ninguém faz moqueca igual a Maria Clara – afirmou o Cabo.
Quincas estalou a língua. Negro Pastinha riu:
– Tá doidinho pela moqueca.
– E por que a gente não vai? Mestre Manuel é até capaz de
ficar ofendido. Entreolharam-se. Já estavam um pouco
atrasados pois ainda tinham de ir buscar as mulheres.
Curió expôs sua dúvidas:
– A gente prometeu não deixar ele sozinho.
– Sozinho? Por quê? Ele vai com a gente.
– Tou com fome – disse Negro Pastinha.
Consultaram Quincas:
– Tu quer ir?
– Tou por acaso aleijado, pra ficar aqui?
Um trago para esvaziar a garrafa. Puseram Quincas de pé.
Negro Pastinha comentou:
– Tá tão bêbedo que não se aguenta. Com a idade tá perdendo
a força pra cachaça. Vambora, paizinho.

Curió e Pé-de-Vento saíram na frente. Quincas, satisfeito
da vida, num passo de dança ia entre Negro Pastinha e
cabo Martim de braço dado.