quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Chuva

 SANDRA CAMURÇA

Chovia e o barulhinho da chuva era tudo de bom naquela noite, além de Cassius e o silêncio interrompido de tempos em tempos pela centrifugação da máquina de lavar roupas. Cassius deitado de bruços no chão tinha o olhar mais doce e preguiçoso do dia. Sua languidez, quase felina, fazia pensar até que ponto cachorros são sempre cachorros, às vezes Cassius é tão gato, arisco, vagaroso, mas só às vezes, estava sonolento.
Cassius levanta, dá meia volta e olha pra mim. A máquina de lavar completara o ciclo. A chuva cessa. Agora é só o silêncio, eu e Cassius. Levanto pra estender os lençóis no varal. Cassius atina que é um cachorro e vem atrás correndo, deita-se, sempre vigilante, próximo, alerta. São os atavismos da espécie, não importa que seja doméstico, a vida selvagem de seus ancestrais ainda está nele. Quando sobe na bancada da sala e uiva, o que vejo não é Cassius, vejo um lobo no ponto mais alto da montanha, poderoso  enquanto uiva, poderoso enquanto marca território mijando na casa toda. Pô, Cassius! Isso dos ancestrais em Cassius me faz pensar em meu pai, em minha mãe, no que ficou deles em mim, de bom e de ruim. O dna, a carga genética, temperamento, gestos, estão sempre ali, aqui dentro. Tento cultivar o que é bom, o que é ruim tento não repetir, tento, tento, nem sempre consigo.
Qualquer barulho na rua atrai Cassius, ele vai correndo até a varanda, late, late, depois sossega, senta, fica parado olhando pro céu, não sei o que lhe chama mais atenção, se as estrelas ou as luzes dos edifícios ao redor. Paro e fico observando-o com ternura, acho tão fofo, mas esta noite não tem estrelas, recomeça a chover, Cassius sai da varanda e pula no sofá, deita todo enroscadinho. Às vezes Cassius é tão gato, sempre inocente, inocente como todos nós fomos um dia quando nossos pais e mães eram nossos heróis e heroínas, e os ancestrais de Cassius, lobos altivos e alertas enquanto uivavam sob a lua e céu estrelado.
Neste instante Cassius levanta a cabeça, olha pra mim como se adivinhasse meus pensamentos, eu sorrio, ele suspira profundamente e fecha os olhinhos, já são quase duas da madrugada e eu ainda roendo o osso da escrita.