domingo, 4 de dezembro de 2016

Poupança sexual


Ciduca Barros

Quem é casado e já fez farras sabe muito bem disso. O pior momento é aquele do retorno ao lar. Enfrentar os olhares críticos dos filhos e a ira da mulher é uma consequência negativa e natural de qualquer bebedeira. 
E ainda existem homens que contam com a crítica exacerbada da sogra, mas estes fazem parte de uma infeliz exceção. É como se diz atualmente: “ninguém merece”. 
Vejamos o caso daquele conterrâneo. Meteu-se numa farra homérica tendo como companheiro de esbórnia o seu compadre. Depois de quase 24 horas de orgias, com passagens por vários bares, botequins, bodegas, biroscas e lugares escusos da cidade, inclusive em determinados ambientes destinados apenas para homens libertinos, os embriagados resolveram encerrar a monumental carraspana. 
Naquele momento, apesar de bêbado, mas sentindo por antecipação a ira que teria de enfrentar da sua consorte, bateu uma apreensão num dos farristas.
– Porra, e agora, compadre? Que diabos eu vou dizer pra Helena? 
Por sua vez, o alcoolizado compadre, fazendo prevalecer a sua ascendência familiar sobre o outro bebum e se dizendo mais experiente naquele mister, não se fez de rogado:
– Deixe tudo comigo! Eu vou com você e darei todas as explicações plausíveis e tranquilizadoras à minha comadre! 
E tomaram o rumo da casa do compadre-temeroso. Seria desnecessário dizer do estado belicoso da esposa deste, o que constaram logo na chegada. 
E a mulher foi logo despejando uma torrente de impropérios:
– Farrista de uma figa!  Estas são horas de chegar em casa, cachaceiro? Quase 24 horas de bebedeiras na rua, andando não se sabe onde. Onde você estava, safado?
O conterrâneo, amedrontado, silente e de cabeça baixa, vira-se para o companheiro de farra, o compadre que iria amenizar a situação, como que dizendo: “agora é a sua vez, responda! ”. 
O compadre-ébrio, entendendo o apelo tácito do outro, a título de resposta para a comadre, desfechou na bucha:
– Ele estava no cabaré!
Então o tempo fechou. Aquela resposta machista não “tranquilizou” coisa nenhuma. Aliás, piorou, e muito, a já crítica situação. A mulher que já estava irada, agora ficou apoplética. 
– Eu não acredito, seu cretino! É verdade o que esse outro bebedor, que é da sua mesma laia, está dizendo? O que você estava fazendo no cabaré, Luiz Pedro?
Outra vez, o marido olhou ansiosamente para o seu compadre-quebrador-de-galho, como que dizendo: “conserte a merda que você disse”. 
E mais uma vez, o mudo recado foi entendido e o mediador, jogando mais “tranquilidade” na celeuma doméstica, tentou consertar o cagaço com outro bem pior: 
– Ele estava lhe “poupando”, minha comadre!

Escritor, funcionário aposentado do Banco do Brasil e colaborador do Bar de Ferreirinha