quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Desarrumação Digital

imagem: healthcareasia.org
Heraldo Palmeira

Tudo corria bem, até que, ao final de uma semana intensa de trabalho, fui desligar o computador e apareceu uma mensagem oficial da Microsoft, convidando a atualizar o sistema e oferecendo duas opções: reiniciar ou desligar ao final.

Bastou um clique para ter início uma desarrumação digital, a quarta nos últimos dois anos. Computador travado, não restou alternativa além de chamar um amigo técnico e formatar a máquina mais uma vez.

Desta vez, senti não o estresse costumeiro das outras vezes; apenas um desânimo analógico, uma falta de vontade de reorganizar tudo (configurar a máquina), instalar programas, aplicativos e retomar a rotina de dependência desse mundo plugado, opressor, implacável, incompreensível para a maioria de nós, simples usuários que queremos apenas continuar fazendo nossas coisas comuns.

Mesmo usando somente produtos originais, estou tendo ainda um monte de contratempos creditados à incompatibilidade entre sistema, programas e aplicativos. O antivírus de última geração não está nem um pouco interessado em conversar com o ambiente do meu banco e anda atrapalhando meu acesso a alguns sites de notícias.

Os dicionários voltaram a me fazer companhia, porque abri mão do ainda controvertido Windows 10 em favor da velha e mais confiável versão 7 que mantive guardada na estante.

A dança de arquivos entre HDs é sempre mais lenta do que deveria e desanimadora pela estupidez do processo. Fico me perguntando como, até aqui, ninguém conseguiu uma solução simples e rápida para esse processo.

Pensei nos tempos rudimentares da informática, quando máquinas e programas eram bem mais simples, não passavam de ferramentas de apoio. Hoje, nós somos as ferramentas de apoio desse mundo cada vez mais cheio de inutilidades obrigatórias, que saltam na tela deixando a nítida impressão de que têm vida própria.

Confesso – e não tenho como negar – minha enorme saudade das velhas Remington, Olivetti, Facit, Royal, Olympia..., cujos problemas eram simples de resolver. Quase sempre, trocar a fita ou limpar com álcool os caracteres. Vez ou outra, levar a uma oficina para o mecânico limpar e lubrificar as engrenagens.

Algumas tiveram versão elétrica, que era um luxo. Até que chegamos ao superluxo das IBM, com direito a corretor. Primeiro, as de esfera e, no último estágio antes dos computadores, as de margarida.

Todas elas, manuais ou elétricas, umas fofas dóceis que não tinham nenhum interesse em nos tirar do sério, como esses bestas desses computadores sem personalidade, que planejam dominar o mundo e até invadir a área do pensamento com sua inteligência artificial.

Já dizia o mestre João Ubaldo Ribeiro, “O que eu faço com o computador? Porque isso é uma máquina de fazer maluco!”. Ponto final!

Documentarista e produtor cultural, colaborador do Bar de Ferreirinha. Texto originalmente publicado no blogue Conversas do Mano. Leia aqui