sábado, 17 de dezembro de 2016

A "torcida" do velho marinheiro

Orlando Silveira
Ananias volteou, volteou, antes de abordar o Velho Marinheiro:
– Não sei se devo, mas gostaria de lhe fazer uma pergunta.
– Desembuche. A vida é curta. Afinal, o que você quer saber?
– Ontem, no velório do pai da Deolinda, fiquei observando o senhor.
– Não tinha coisa melhor para fazer? Orasse, então, pela família do falecido. Porque quem fica é que precisa de reza, de força para driblar a saudade, se me entende. O que fiz para chamar sua atenção?
– O senhor entrou mudo e saiu calado. Não disse uma palavra a Deolinda.
– Eu a abracei e beijei com respeito e emoção.
– Eu vi. Mas por que não lhe disse nada, medo de revelar a voz embargada?
– Não seja besta. Ananias, meu pai me ensinou…
– Desculpa, quem lhe ensinou?
– Meu pai. Ou você acha que eu, por ser velho, não tive pai, que minha mãe ficou grávida por obra de um espírito nada santo? Tenha paciência.
– Perdão. Não ouvi direito. O que seu pai, afinal, lhe ensinou?
– Que a gente, quando não tem o que dizer, deve ficar em silêncio. Numa hora dessas, ninguém tem nada que preste a falar, além de platitudes nem sempre sinceras. Em geral, um olhar e um abraço dizem mais que uma penca de chavões.
– Também observei também que o senhor não esquentou cadeira.
– Verdade. Sabe por quê?
– Não.
– Ora, você é péssimo observador. Não sei como conseguiu ganhar a vida como jornalista. Ananias: como sempre acontece nessas ocasiões, formam-se rodinhas de desocupados que passam a contar piadas bestas e a falar mal dos outros. Por isso, caio fora. Para não criar confusão no velório. Torço para que Deolinda supere logo o trauma e recupere o frescor que a caracteriza, isso sim.
Ananias sorriu sorriso maroto:
– O senhor…
– Eu o quê? Vai me dizer que você torce pelo contrário, para que ela guarde luto por anos? Seria uma tragédia para todos nós. Oremos.