terça-feira, 22 de novembro de 2016

O vulgar vinho nosso de cada dia

Ivar Hartmann

Uma página engraçada da vida nacional é quando ficávamos sabendo que os líderes petistas, nas refeições em bons restaurantes de Brasília, tomavam vinhos de trezentos reais a garrafa que também abasteciam o Palácio da Alvorada. Pessoas, como se sabe, de finíssimo trato. Vinho francês, charuto cubano e conta no exterior. Dinheiro para gastar sem ter de economizar. Neste melhor dos mundos aquele maldito árabe de Curitiba vai denunciar de onde vinha o dinheiro gasto nababescamente. A maioria deles presos, o Juiz Moro deveria autorizar a venda na cantina do presídio, destes vinhos que o próprio Baco acharia divinos. Podem escrever, o sujeito que gasta desbragadamente seu dinheiro, ele não é de origem lícita. Vamos ao que interessa. Tomo vinho á noite. Daqueles mais baratos, com alguma procedência. Por vontade só degustaria vinhos das ribeiras do Rhone, com origem controlada. Pena que meu saldo bancário não permite. Então fico nos reservas do Cone Sul. Poucos tomadores de vinho entendem das nuances do vinho. Das sutilezas mais importantes (?) que o próprio paladar da bebida: a aparência, e o buquê. Hã, a alegria de mostrar à mesa estes conhecimentos! E os olhares admirados dos que ouvem tanta sabedoria! Nós quando compramos vinho deveríamos consultar antes um sommelier, em vinhos, não em água ou cerveja. Porque hoje, até a água e o chope tem um técnico para nos dizer por que o sabor é assim ou assado. Erudição fundamental.
Então apareceu nos jornais informações sobre novos vinhos à venda. Atenção, pois: um tem aroma delicado de melão e abacaxi associado a tostado (?). Outro a elegância sutil do Chardonnay. A Gisele é mais elegante que um Chardonnay? Outro tem aromas de frutas vermelhas frescas. Isso é o que mais gostam de dizer. Aromas de ameixa, pitanga, jaboticaba, cereja , morango, amora por exemplo. Todas com aromas iguais como se sabe! Tem também o de toque frutado cítrico. Assim, em vez de fazermos vinho com uva, fruta não cítrica, vamos usar frutas cítricas que facilita nosso paladar. Mas, o campeão é o que tem sabor com toques de pão torrado! Este é maravilhoso. Não sei se toque de pão torrado de milho, de pão francês, de pão sanduiche ou baguette. Deve ser ótimo tomar um vinho e sentir nele o gosto do pão torrado. Mas, sem nenhuma natinha ou mel por cima? Moral: Nunca compre um vinho sem consultar um perfumista.
ivar4hartmann@gmail.com