terça-feira, 29 de novembro de 2016

Julgamento

                                                Millôr Fernandes

          Fundamental é não fechar seu julgamento sobre uma pessoa, congelando-a numa conceituação irretocável: tal crítico é ruim porque é de direita, tudo que o tal colunista diz é ridículo porque ele é burro e ignorante, tal sociólogo deve ser seguido porque é culto, sério e progressista: rótulos, estigmas ou marcas de nobreza. E quando se revela que o crítico de direita é um tremendo batalhador de causas coletivas, o colunista burro tem um poder político e uma influência social que você jamais teve ou vai ter, e o sociólogo progressista se demonstra um corrupto e um demagogo barato, você tem de forçar toda sua dialética pra continuar a manter a opinião já afirmada. Ou confessar humildemente - ó dureza! - que quebrou a cara. 
          Conheci um sujeito perverso, verdadeiro monstro moral, que era um maravilhoso e humanístico cirurgião. No Uruguai, Dan Mitrione tomava café de manhã com os dez filhos, antes de ir lecionar tortura, e, pelo que li, o piloto que atirou a bomba de Hiroshima era um homem encantador.