segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Adubos

 

Gleiber Dantas
@gleiberdantas
Tem mais de nove anos o material que serve de adubo para a safra de agora. 
Se o pai aprendeu a fazer algum cultivo, precisa cultivar a confiança em seu filho. 
Não é por este ser mais jovem que não mereça a oportunidade de mostrar que também sabe colher rosas. 
Os velhos hábitos, fechados em si mesmo, proibidos às surpresas destes dias, colorem as rosas, mas não lhes dão perfume algum. 
Quem quer possuir a terra deve, antes, conquistar as sementes. 
De que adianta ter a escritura se a terra não possui o coração? 
É proprietário da terra quem se deixou possuir pela semente que amansou. 
É inverno, é estação chuvosa na alma, mas não é neste inverno que a semente vai brotar. 
Ela vai brotar, quando a água terminar de inseminar naturalmente todo aquele terreno, que já está apalavrado e a palavra não voltará atrás.
Depois de transformar em adubo o material de outro tempo, o próprio homem se faz adubo, desfaz-se de suas certezas, desapega-se da escritura do medo, coloca de molho sua impertinência, toma uma semente como pílula. 
Não é a escritura que faz a posse, pois vento não tem escritura de nada e é quem possui, com paciência. 
Ele, que entalha pedras e cria impressionismo, na paisagem que parecia ser bucólica e clássica, a vida inteira. 
A arte precisa de liberdade, assim as rosas, assim o amor, que não se permitem a clonagem. 
Quem planta rosas quer ser florescimento na alma de quem pensou colhê-las e desistiu de tê-las para a elas se entregar, ser seu adubo.
O homem que não se fez adubo não poderá jamais conhecer as raízes da rosa que pensa dominar. 
O domínio mina a confiança e confere à semente um dó, a nota dissonante que não dá acorde, sozinha.
Como qualquer um dos mortais, a rosa não gostaria de ter espinhos, mas não é pegando uma peixeira e raspando seu talo que podemos ajudá-la. 
Exasperando-a assim, ela sofre, ela chora, ela sangra, ela é violenta.
Faça-se rosa e aprenda como amá-la. 
Entregue-se e ela lhe dará perfume.
Florânia, 17 de novembro de 2016.

Hoje, excepcionalmente, escreve a coluna o padre Gleiber Dantas