quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Só na ressaca o homem é perfeito

Por Xico Sá
Reflito aqui com Miss Soledad, primeiro dia do ano, na margem esquerda do Capibaribe: o homem só é bom por inteiro quando está de ressaca.
Como é virtuoso o homem de ressaca. 
Se não bebe, vale a ressaca moral, naturalmente.
Ao amigo que emenda uma bebedeira na outra de modo a não conhecer mais esse estado de espírito, recomendo: vale a pena dar uma chance a uma ressaquinha felina.
Na ressaca, o homem tem alma de gato; no restante da vida, o homem repete o cachorro.
O primeiro pensamento no homem de ressaca solteiro é casar-se, ter filho, uma vida regrada, amar a Deus sobre todas as coisas, cumprir os 10 Mandamentos.
Sim, ao acordar naquela manhã de sonhos intranquilos, amigo Otto, o mais vagabundo e vira-lata dos homens pensa em véus e grinaldas.
O homem de ressaca está sempre em um altar imaginário à espera da noiva.
Se for casado, o homem de ressaca põe na ponta do lápis os planos para o ano novo.
E promete. 
Como promete um ressacado. 
Promete mais do que todos os prefeitos assumidos neste primeiro de janeiro.
O homem sob o sol da ressaca é de uma dignidade estupenda. Imaculado, fiel, ético, extremamente confiável nesta real grandeza da hora.
Impecável. 
O homem diante do chá de boldo de todas as regenerações morais deste início do ano da graça de 2013.
Carinhoso. 
Ninguém é mais carinhoso com a mulher do que o homem de ressaca.
Só não leva café na cama por estar sem condições físicas para o ato, mas pede os melhores pratos em domicílio.
Neste instante da comida, ele faz, inclusive, mais uma promessa: este ano será mais do cinema de mãos dada e cada vez menos do boteco.
Mesmo em câmera lenta, como é bom de cama o homem hepaticamente fragilizado.
Aliás, amigos, deixo uma interrogação das mais sérias: por que ficamos tão tarados em dias de ressaca? 
É uma paudurescência infindável – mesmo sabendo que a ressaca, depois dos 40, é uma doença, uma dengue existencialista.
Recapitulando: o homem de ressaca é perfeito.
Não mente, não pula a cerca, é carinhoso e tântrico.

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