domingo, 4 de março de 2012

Conflitos culturais


4 de março de 2012
Conflitos culturais

Não é fácil ser novo, é difícil ser velho. O novo luta para se impor; o velho, para manter-se operante. É o chamado choque de gerações ou conflito cultural que ocorre sempre em torno do patrimônio cultural de determinado povo ou sociedade. Os mais velhos lutam com unhas e dentes pela preservação desse patrimônio; os jovens querem modernizá-lo, transformá-lo ou mesmo eliminá-lo para implantar as novidades de suas conquistas, novos conhecimentos e formas vivenciais.
As forças da resistência do status quo representam o que os especialistas chamam Cultural Gap, ou seja, oposição ou reação ao novo ou simplesmente a não aceitação da novidade. Esse embate acontece atualmente com mais evidência com relação aos avanços da tecnologia, que ocorrem céleres e em profundidade especialmente no campo da informática.
Recentemente ao visitar amigo, membro do seleto grupo que sempre me abastece com dados para minhas histórias, encontrei-o trabalhando com seu notebook instalado sobre a mesa de refeições da residência familiar. Chamou-me a atenção o longo fio, cerca de três metros, que ligava o mouse à tomada de energia elétrica. Ele, então, passou a enaltecer a qualidade do fio flexível utilizado no mouse, que possibilitava a acomodação e o transporte, pois quase não ocupava espaço na maleta do computador. Acrescentou, afinal, nunca ter se acostumado a trabalhar com os dedos no sensor do computador, que dispensa a utilização de mouse.
No dia seguinte ao comparecer ao meu escritório para entregar-me por escrito as informações por mim solicitadas, encontrou-me ao computador utilizando um mouse sem fio, conectado por meio da tecnologia Bluetooth!  Conto esse fato apenas para ressaltar a velocidade com que a informática inova suas técnicas atualmente. Do dia para a noite muda tudo ou quase tudo e quem não se atualiza para acompanhar a mudança fica a ver navios, chupando o dedo.
Veja-se o que agora mesmo está acontecendo. A Microsoft acaba de lançar o Kinect, sensor de movimentos que permite aos usuários de games dispensar controles, teclado ou joysticks, e usar apenas os movimentos do seu próprio corpo para acionar o entretenimento. E ainda neste trimestre essa fantástica tecnologia estará incorporada à nova geração de notebooks com o novo Windows já em experimentação! 
Não vai demorar muito o mouse sem fio que o meu amigo comprou, imediatamente após ter visto o funcionamento perfeito do meu, logo estará inteiramente superado.
Infelizmente ainda é muito grande à aversão, resistência ou desconhecimento das gerações mais velhas em relação aos computadores. Da minha geração contam-se nos dedos das mãos os que utilizam computadores. Alguns ainda insistem trabalhar nas suas velhas máquinas de escrever. Alguns não admitem sequer as máquinas elétricas ainda existentes! De um deles os filhos resolveram reorganizar a velha e vasta biblioteca. Mas meu amigo não admitiu que os milhares de livros fossem catalogados no computador. Tudo teve de ser feito na ponta do lápis, em fichas de cartolina, como ele exigiu!
Esse meu amigo e colega é legítimo exemplar da cultural gap, sempre resiste às inovações.  Basta considerar que até hoje, com mais de 70 anos de idade, sempre andou de ônibus ou de táxi, nunca comprou um automóvel nem aprendeu a dirigir! Telefone celular, nem pensar! 
É tão comum a manifestação desse fenômeno em pessoas idosas como é rápida a aceitação das novidades pelos mais jovens. O computador, o celular, a música, as novas formas de expressão verbais e da moda no vestuário, o estilo de comportamento social e de interação entre os gêneros tudo isso escandaliza os velhos hábitos e conceitos do meu bom amigo, que ainda dedografa suas poesias na velha e bem conservada máquina Remington comprada em 1958!
Sempre foi assim, as novidades por mais evidentes sejam os seus bons resultados geram fortes reações em contrário. A energia elétrica necessitou de quase meio século para ser universalmente aceita; o automóvel e a televisão em cores exigiram mais de 20 anos para convencer; a internet enfrentou e ainda enfrenta muitos obstáculos no mundo para ser aceita como ferramenta de grande utilidade, imprescindível para a humanidade. A Kodak, empresa fundada em 1888 por George Eastman, o inventor do filme fotográfico, não acreditou na máquina fotográfica digital, preferindo insistir no antigo. Pediu concordata recentemente.
Não é fácil a aceitação de mudanças. Fernando IV de Bourbon disse, com absoluto acerto, ser mais fácil perder um reino do que um hábito. O alfabeto, que hoje é o sangue das comunicações humanas, levou séculos para vencer a resistência dos escribas que usavam a escrita cuneiforme e hieroglífica. Idêntica resistência na matemática foi posta em relação ao sistema decimal pelo sistema sexagesimal. Caicó não serviu de teatro para a chamada Revolta do Quebra Quilos? Os revoltosos estavam a serviço da cultura gap, que tinha seus pesos e medidas estabelecidos por palmo, jarda, polegada, côvado, libra, arroba, braça, légua, onça e outros muitos padrões antigos. Os revoltosos não aceitavam o novo sistema do metro, do quilo e do litro!
Não sou daqueles que proclamam que a internet vai acabar com o livro e com os jornais.  Mas não posso deixar de confessar ser muito mais cômodo ler o jornal digital do que o impresso. Ponho a letra do tamanho que quero, copio, recorto, salvo e leio os jornais dos grandes centros (São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília) muito antes de chegarem às bancas. E mais, esteja onde estiver com meu laptop consigo ler o que quero.
Quanto aos livros, principalmente os que tratam de assuntos especializados ou técnicos, nada melhor do que o computador para a sua leitura. Nada deixo passar sem entender bem, graças ao Google e a Wikipédia. Se o autor se refere à cultura gap e eu nunca tinha ouvido falar nisso, abro imediatamente a Wikipédia e nela encontro tudo a respeito da cultural gap. Se o autor se refere à tecnologia do Kinect e eu nada sei sobre o assunto, imediatamente abro a pesquisa do Google e fico por dentro de tudo quanto preciso saber sobre essa tecnologia. Bluetooth? Que danado é isso? É só abrir a pesquisa do Google que fica tudo esclarecido. E se quiser ver os equipamentos é só abrir imagens do Google.  É nele que você ler, ver e tira todas as dúvidas.
A cultura seridoense é variada e abundante, tem tradição, história e particularidades próprias se comparadas com as outras regiões do Rio Grande do Norte. 
Caicó, fonte principal de abastecimento do ciclo econômico da bovinocultura, guarda marcas profundas em suas manifestações culturais com raízes nessa época. O mesmo se pode atestar em relação ao ciclo do algodão, o melhor e mais valioso já produzido no Brasil.
Mas, quando a conjuntura econômica tornou-se desfavorável, os empreendedores caicoenses impuseram novos rumos ao destino da região. Era chegada a hora de inovar para evoluir. Caicó transformou-se no maior centro regional de comércio e prestação de serviços. E me parece que, agora, é chegado o momento de novo avanço. Urge que se transforme o seu Campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em Universidade Federal do Seridó. É chegado o momento de se começar a trabalhar para elevar Caicó ao status de Cidade Universitária. Possibilitando-lhe ultrapassar o prestígio cultural que sempre desfrutou no Estado, tal como ocorreu com Campina Grande na Paraíba.
Procurador federal e ex-prefeito de Caicó

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