domingo, 5 de fevereiro de 2012

Valentim Cardoso, o Satanás (II)


5 de fevereiro de 2012
Valentim Cardoso, o Satanás (II)


CASTRAÇÃO — Enoque Tributino, filho do fazendeiro Eusébio Tributino, com 20 anos de idade, seduziu menor de 15 anos, filha do pequeno proprietário rural Epaminondas Rojas. Não quis casar. A moça tinha quatro irmãos homens, todos maiores, um deles estabelecido com sortida mercearia em Catolé do Rocha, na Paraíba, onde todos residiam.
Eusébio Tributino, homem rico e de influência política no município de Patos, também na Paraíba, ao invés de ajeitar o casamento, mandou oferecer dinheiro pela honra da moça, que se chamava Maria Estelita Rojas.
Valentim foi procurado por um dos irmãos de Estelita. Os Rojas queriam ajustar contas com o malfeitor, capá-lo!  
Tudo acertado e testado, Enoque foi seqüestrado quando se dirigia a baile que se realizava na redondeza.  Amordaçado, olhos vendados e com as mãos amarradas para trás, conduziram-no até um terreno inabitado e o castraram!  
Cortaram-lhe a bolsa escrotal a frio e, por cima, amordaçado e com a boca entupida de pano!    
Desmaiado, esvaindo-se em sangue, o corpo foi largado à beira da estrada onde havia sido seqüestrado, mas escapou.  Toda a família Tributino mudou-se de Patos para o interior do Ceará. 
MARITICÍDIO — Casal muito rico, da alta sociedade natalense, não vivia em harmonia, constando que o marido batia na mulher e não lhe dava a mínima atenção em nada.  Possuíam uma bonita casa e muitos bens.
Oscar Nonato Helzídio, o marido, ocupante de um dos mais elevados cargos públicos do Estado, nas horas de folga na repartição alfandegária onde trabalhava, quando não estava na casa das amantes, estava na mesa do jogo. Passava noites inteiras e quase todos os fins de semana jogando baralho.
Tendo ajustado o serviço com Dona Dolores Santiago Helzídio, Valentim empreitou a execução do assassinato do marido da sua cliente com Sebastião Catariano, ex-presidiário, autor de vários homicídios a mando, inclusive alguns dentro do próprio presídio.  
Na noite aprazada, Sebastião ficou de tocaia dentro da murada da residência da vítima, esperando que ela retornasse do jogo, o que ocorreu por volta de vinte e três horas. Matou-a 
à cacetada no momento em que tentava abrir a porta principal da casa. Mas alguém presenciou o velho matador saindo do local do crime e pôde gravar com exatidão traços que davam para identificá-lo.  Manquejava. Era magro, alto e careca.
Na fuga o homicida sofreu uma queda e desmentiu o pé direito, tendo de recorrer a uma enfermaria no outro dia bem cedo, onde o foi encontrar Valentim.
Não demorou muito a Polícia prendeu Sebastião. Valentim matou-o envenenado imediatamente, antes que fosse ouvido no processo.
Ao invés de Oscar Herzídio, Sebastião matara outro homem — Olavo Ferolsa, amante de dona Dolores Helzídio, e que naquela noite, certo de que o marido dela estava na casa de jogo, e sem nada saber sobre o pacto criminoso, veio fazê-la uma visita! 
Restou grande confusão.  Oscar Herzídio, acusado de mandar matar Olavo e o próprio Sebastião!  E por muitos anos Valentim extorquiu dinheiro de Dona Dolores! 
CASTROS X MARIZEIRAS — Duas importantes famílias do sertão paraibano se desentenderam por questões políticas. Numa festa de clube dois jovens das famílias adversárias trocaram tiros. Saíram bastante feridos, mas não morreram.  Desencadeou-se a guerra entre os dois clãs. 
Um dos líderes de maior projeção no grupo da família Castro tinha negócios em Natal, para onde viajava quase todo mês.
Contratado por Antônio de Pádua Marizeira, pai de um dos rapazes do tiroteio no clube, para matar o inimigo, Valentim recorreu aos serviços de Zé Carcará, exímio pistoleiro, cabra que vivia na fazenda Mão Preta, acoitado pelo Coronel Manoel Bastino, na Serra da Tapuia, e que conhecia bem Natal e redondezas, porque durante muitos anos fora tangerino de boiadas para o matadouro natalense.  Homem de confiança e corajoso, não perdia bote nem chumbo.
Ulisses Severo de Castro foi morto com dois tiros de pistola.
O mais intrigante da história é que no mesmo dia, 23 de junho, no interior da Paraíba, era assassinado com um tiro de rifle, Antônio de Pádua Marizeira, nada se sabendo sobre a autoria e os motivos desse crime.
Por muito tempo depois continuaram sendo assassinadas pessoas tanto de uma como de outra dessas duas famílias. 
Os dois jovens que dispararam os primeiros tiros fizeram carreira na política, um na Paraíba, outro em Pernambuco.   E nunca mais se encontraram.
POR CAUSA DE UM CACHORRO — Luís Etelvino da Silva era próspero comerciante em Garanhuns, Estado de Pernambuco.  
Dona Regina Almeida Barbosa, esposa de Napoleão Barbosa Sobrinho, vinha passando pelas proximidades da residência de Luiz quando foi atacada e ferida por cachorro seu.  Revoltado, Napoleão veio tomar satisfação com o dono do cachorro, que o recebeu muito mal, gerando forte discussão e ameaças de ambos os lados. Napoleão esbravejou, se um dia topasse com a fera solta na rua a mataria. Luís Etelvino replicou que, nesse caso, quem quer que fosse o mata-cachorro se considerasse morto também no primeiro encontro com ele Luís Etelvino após o abate do animal.
Dias depois o cachorro morreu, envenenado.   
Sem ter chance de esboçar nenhuma defesa, Napoleão Barbosa foi assassinado a tiros por Luís Etelvino.
O criminoso fugiu para Natal, onde abriu uma casa de cereais e um bar.
Valentim foi procurado por um homem que se dizia parente da vítima e queria vingança.
Luís Etelvino foi morto na mesma semana, sendo o autor material do crime um pistoleiro conhecido por “Três orelhas”, cearense que se encontrava em Natal foragido da Polícia do seu estado.
O traço mais triste dessa ocorrência é que quem envenenara o cachorro móbil do crime não fora Napoleão Barbosa Sobrinho, mas um tal de Juarez Sidrônio, pessoa que também fora atacada pelo animal.
NOVO E ANTIGO BANDITISMO — Como vêem fiz apertada síntese de alguns das dezenas de crimes praticados por Valentim Cardoso, talvez o maior facínora nascido em terras seridoenses. Nunca pegou um dia sequer de cadeia!  E, no fim da vida, tornou-se pessoa muito estimada em Caicó, principalmente pela sua religiosidade. 
Na próxima semana concluirei a minha síntese de seus homicídios, transmitindo aos leitores do blogue resumo daquele que considero o mais tenebroso dos crimes cometidos por esse pacato devoto de São Bento José Labre.
É assunto desagradável, mas pelo menos serve por evidenciar como a sociedade evolui vagarosamente. As páginas policiais dos jornais de hoje pouco diferem das crônicas antigas do que se chamava cangaceirismo e banditismo.
Procurador federal e ex-prefeito de Caicó

1 comentários:

  1. Essa caba era mais perverso do que o Fernandinho Beira Mar, o Fabiano Atanázio da Silva, conhecido como FB, e Luis Cláudio Serrat Correa, o Claudinho CL, juntos. Beira Mar foi para Rondônia, mas os outros dois, que derrubaram um helicóptero da polícia no Rio de Janeiro, estão confortavelmente instalados no presídio federal de Mossoró.

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