terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

De olho no mundo - 30

28 de fevereiro de 2012

Carnaval do milhão
Um amigo querido ligou indignado com a quantidade de pessoas que a mídia estipulou para alguns momentos do último Carnaval – fato comum nos grandes eventos brasileiros e que vira manchete.
Instigado por esse amigo, convido você a marcar no chão um quadrado simples. Deve, apenas, ser um quadrado perfeito, com quatro lados de um metro cada. Agora chame três pessoas que estiverem por perto e entre com elas nessa trapizonga.
Pois bem, quatro pessoas por metro quadrado é o padrão para medir grandes multidões, quando se diz que o lugar estava superlotado, botando gente pelo ladrão.
No Rio, o Cordão do Bola Preta teria arrastado 2,5 milhões de pessoas em seu cortejo folião. “Não cabe!” – vociferou aquele meu amigo indignado do telefonema. “É uma questão simples de matemática. Basta calcular a metragem do espaço e colocar quatro pessoas por metro quadrado, que significa um aperto danado”, complementou o arquiteto que também pilota helicópteros.
Matéria do jornal O Globo lança desconfiança sobre o número e afirma que, com muito boa vontade, o cortejo alcançou 540 mil pessoas – colocando dez pessoas por metro quadrado, o que seria quase insuportável.
E o meu amigo volta à carga, implacável. “Trabalhei com o helicóptero fazendo cobertura aérea durante o Carnaval. Dois milhões de pessoas no Galo da Madrugada? A população da cidade é um milhão e meio! Enquanto o bloco desfilava, também sobrevoei Olinda. Estava tudo lotado por lá”.
Para esse número bater com a realidade, é como se todo mundo que vive no Recife estivesse em cima daquela ponte ou nas ruas do derredor. Sem ficar ninguém em casa. Ninguém. Nem os velhinhos que já não se locomovem. Até os internos das UTIs e os presidiários precisariam ajudar na conta. Motoristas e cobradores de ônibus, funcionários do metrô, taxistas, vigilantes, militares de todas as fardas, médicos e enfermeiros de plantão, recém-nascidos, religiosos, freiras enclausuradas... Nem o bispo escaparia da farra.
Além dessa possibilidade completamente improvável, outro meio milhão de pessoas teria que desabar sobre o Recife e se juntar obrigatoriamente à população inteira, já concentrada ao redor do galo famoso. Nenhum turista poderia ir a outro lugar na cidade.
Noutra opção, supondo que 500 mil recifenses decidissem não ir atrás do Galo, o que é muito provável, e “somente” um milhão dos habitantes sentassem praça nesse frevo, teria de chegar outro milhão à cidade para completar os dois milhões anunciados.
Se esse milhão de visitantes viesse de ônibus, lotaria 20 mil daqueles modernos e enormes. Onde ficariam estacionados tantos busus? Se optassem por chegar espremidos em carros, seriam 200 mil automóveis brigando por uma vaguinha. Ah, viriam de avião? Nada menos de 5,5 mil aeronaves comerciais desceriam no Aeroporto dos Guararapes, num fuzuê que tiraria Boa Viagem do prumo.
Onde se hospedariam esses foliões visitantes? Seriam necessários 833,3 hotéis de 20 andares, com 30 quartos por andar – totalizando 600 apartamentos em cada hotel e dois hóspedes por apartamento. Nem São Paulo tem essa capacidade instalada, mesmo juntando hotéis, flats, pousadas, pensões, albergues e mosqueiros em geral.
Outro amigo que gerenciou hotéis e hoje atua como consultor na hotelaria paulistana é taxativo: “Temos em São Paulo 42 mil apartamentos, divididos em 410 hotéis”. Ou seja, a maior cidade da América do Sul só consegue acolher 84 mil pessoas ao mesmo tempo, se colocar dois hóspedes em todos os apartamentos oferecidos pela rede hoteleira. Resignado, refiz as contas com os parâmetros corretos. Dessa maneira, seriam necessários 5 mil hotéis com cem apartamentos na Veneza Brasileira, um parque hoteleiro 12 vezes maior do que o paulistano.
Tá bom, mesmo que o acolhedor povo recifense hospedasse em casa a metade do milhão de pessoas que chegasse – haja espírito de acolhimento –, ainda precisaríamos de 2,5 mil hotéis para acomodar o resto. Seis vezes mais do que o que Sampa oferece!
Ah, ia me esquecendo: e o povaréu que meu amigo viu lá do céu, lotando os becos históricos de Olinda na mesma hora em que o Galo da Madrugada reinava absoluto? Outro milhão?
Felizmente, esses exageros são incapazes de tisnar o extraordinário espetáculo carnavalesco que o brasileiro promove a cada fevereiro em diversas cidades. Querendo apenas se divertir, sem fazer qualquer conta de chegada, ignorando solenemente os milhões de pessoas inventadas pelos organizadores.

3 comentários:

  1. Colega Heraldo,

    'ômi, que tribuzana é essa?
    Esse cabra deve ser PHd em contagem de chatos em pentelhos de africanos!!!
    Mas ele 'tá certíssimo: afinal, não dá prá juntar tanto povo num furdunço danado desses!!
    Isso 'tá igual ao inchaço da petralha nas folhas de pagamento dos governos da estrelinha vermelha.
    iDento, Nobre Penoso Madrugador!!

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  2. Quem quer que seja o responsável pela estatistica oficial das coisas em Pernambuco mente! Aliás,de um modo geral a mentira anda combinando com tudo o que é oficial e federal. É ou não é? E, com seus estudos, tenho medo da Copa de 2014. Será que eu vou ter que sair de minha casa prá acomodar o povo que virá de fora? Ou terei de dormir no Itaquerão? Para uma sãopaulina convicta como eu, isto seria o fim da linha, o apagar das luzes, o crime da mala preta!!

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  3. Tem um amigo meu que diz, quando tudo está muito lotado, que "brotava gente do chão". Nem isso ia resolver essa equação proposta, pois com dez pessoas por metro quadrado, nem se o cara quisesse brotar do chão: ia ser pisoteado...risos

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