Lembro-me como se fosse hoje da minha primeira participação no Carnaval de Caicó. Foi em 1949, tinha 14 anos de idade e acabara de me matricular no Ginásio Diocesano Seridoense para o primeiro ano do Curso Ginasial. Domingo 27 de fevereiro, com meus irmãos, minha mãe, Teresinha Dantas (filha do maestro Felinto Lúcio Dantas) e Brasilícia Silva, amiga da família, em carro fretado, ingressamos no corso. Ficamos uma hora, das 16,30 as 17,30, rodando vagarosamente por trechos das avenidas Seridó, Coronel Martiniano e Otávio Lamartine. Nunca me esqueci da expansiva alegria de “Bequinho” (Humberto Gama de Carvalho Júnior, grande amigo de infância, filho do velho dentista de Caicó, Dr. Humberto Gama de Carvalho, cuja família seguia no corso logo atrás do nosso carro. Bequinho, de saudosa memória, morava na casa onde hoje fica a Biblioteca Olegário Vale e onde também funcionava o consultório do pai dele. No dia seguinte ao me encontrar com “Bequinho” ele me abraçou fortemente, dançando e cantando “Chiquita Bacana”. Mais de meio século depois, em visita ao México, encontrei em um museu estátua de Chiquita Bacana! Diante dela, em profundo e emocionado silêncio, solfejei no coração a marchinha de 1949, oração de saudade ao amigo de infância.
E viva o Zé Pereira / Pois a ninguém faz mal / Viva a bebedeira / Nos dias de carnaval! / Zim, balada! Zim, balada! / E viva o carnaval.
Surgido no carnaval de 1846, tendo como protagonista o português José Nogueira de Azevedo Paredes, O Zé Pereira, “carão amorenado e simpático, olhos brejeiros, bigode curto e grisalho, cabelo todo branco e à escovinha, barba escanhoada, altura regular, ombros e cadeiras largas, peito cabeludo, musculatura de atleta, sempre em mangas de camisa, calça de brim pardo apertada ao amplo abdome por estreita correia, negação ao suspensório, chinelos de liga, vendendo saúde, sadio e robusto sem nunca ter tomado um remédio”, segundo o descreveu Vieira Fazenda, nunca deixou de ser lembrado.
Nos anos seguintes dediquei-me exclusivamente aos estudos e a ajudar meu pai na bodega. Deles guardei apenas a lembrança de alguns dos sucessos musicais que os foliões entoavam repetidamente: Balzaquiana, General da Banda, Tomara que Chova, Maria Candelária, Lata d’água e Sassaricando.
Foram as filhas do Presidente Afonso Pena, que, no Carnaval de 1907, lançaram três grandes novidades para os festejos momescos: serpentinas, confetes e o irresistível lança-perfume, que reinou muitos anos no carnaval brasileiro, até que, em 1961, por recomendação do jornalista Flávio Cavalcanti, o Presidente Jânio Quadros proibido seu uso.
Os carnavais de 1953 a 1955 passei-os em Natal. Conclui meu Curso Científico no Ateneu e queria estudar Direito. Ainda não havia universidade no Rio Grande do Norte. Nem havia emprego para mim, pois fazia três anos que procurava um e nunca consegui, apesar de ser exímio datilógrafo e razoável redator de correspondência comercial, habilidade que adquiri, redigindo respostas às cartas que meu pai recebia dos fornecedores, bem como outras correspondências, como a de pedidos de mercadorias aos fornecedores, cobranças e, vez por outra, cartas que pessoas analfabetas, fregueses da bodega, queriam enviar para parentes distantes.
No domingo de carnaval, 12 de fevereiro de 1956, por volta das 10 horas, cheguei ao Rio de Janeiro, então Capital da República, e me hospedei numa humilde pensão do bairro São Cristóvão, a qual se encontrava totalmente vazia; não havia ninguém sequer na portaria para me atender. Adentrei o prédio, conduzindo minha mala. Ocupei um quartinho que encontrei aberto e desocupado. Esperei assustado até meio dia. Não apareceu ninguém.
Na rua o carnaval fervilhava, sem frevo. Gravei para sempre as músicas que ouvi repetidamente: Quem sabe, sabe; Turma do funil; O teu cabelo não nega. Senti-me que não estava perdido. Comecei a cantarolar Chiquita Bacana. Animei-me e tomei um táxi com destino a Bonsucesso, a procura de uma prima, Virgínia Medeiros, que morara conosco alguns anos em Caicó. O marido dela, Alfredo Félix Coutinho, garçom do Amarelinho, famoso bar do centro do Rio, levou-me a todos os recantos da Cidade Maravilhosa e com o casal, que se mudara para apartamento em Olaria, morei o restante do ano de 1956. Os dois anos seguintes residi na Rua Paula Matos, em Santa Tereza. Já conhecia bem o Rio e adorava o seu carnaval de rua, o maior espetáculo popular do mundo! E que musicalidade: Maracangalha; Vai com jeito (esta a minha preferida. Ainda hoje vez por outra me vejo cantarolando, principalmente quando estou dirigindo: Menina vai, com jeito vai... Senão um dia a casa cai. O carioca, grande gozador, trocava casa por calça). Madureira chorou marcou para sempre o carnaval de 1958.
Outros eventos singularmente espetaculares do carnaval do Rio foram os bailes que a partir de 1936 elegia as mais belas fantasias do ano, festas onde brilharam astros que se tornaram ícones do carnaval carioca como Clóvis Bornay e Evandro de Castro Lima; estrelas como Zélia Hofman, Wilsa Carla e Marlene Paiva. Dois casos inusitados ocorreram nesses Bailes de Gala do Teatro Municipal: No de 1949, a bailarina Luz del Fuego ao apresentar-se caracterizada de Eva inesperadamente retirou a cobra que cobria partes do corpo e desfilou completamente nua! No de 1964 o Governador Carlos Lacerda anulou a decisão da direção do concurso e impôs a eleição de Isabel Valença, conhecida como Chica da Silva. Alegou preconceito por parte da direção do concurso que relegara Isabel porque era integrante de escola de samba!
Depois de 1958 estive três vezes no Rio de Janeiro durante o período carnavalesco. Em 1959, quando a Portela sagrou-se campeã pela 14ª vez com o enredo Brasil, Panteon de Glórias. Desse ano ainda hoje é sucesso a marchinha Me dá um dinheiro aí. Em 1967 novamente estive no Rio e assisti Mangueira sagra-se campeã com o enredo O Mundo Encantado de Monteiro Lobato. É desse ano o clássico Máscara Negra, presentes em todos os carnavais até hoje. Dez anos depois, em 1977, na Avenida Presidente Vargas, presenciei a consagração da Beija-Flor de Nilópolis com Joãozinho Trinta e o enredo Vovó e o Rei da Saturnália na Corte Egipciana.
Depois de tudo isso, fiz minha escolha, o melhor carnaval do mundo é o do Magão em Caicó — O Ala Ursa do Poço de Sant'Ana, bom, bonito e barato. E de quanto conheço de carnaval é o único do Brasil que continua sendo um evento belo e tranquilo, animado e alegre, no qual o povo participa e se diverte espontaneamente sem precisar possuir lenço ou documento.
Além disso, é o único que comprova a atualidade da perspicaz avaliação do Barão do Rio Branco, segundo a qual no Brasil existem duas coisas regularmente organizadas: a desordem e o carnaval.
Anos depois, Millor Fernandes escreveu este paradoxo: Pouco a pouco o carnaval se transfere para Brasília. Brasília já tem, pelo menos, o maior bloco de sujos.
Não se preocupem foliões, o carnaval é tudo isso mesmo, um paradoxo e mais muita coisa boa como o Ala Ursa do Poço de Sant'Ana de Caicó.


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