Por Rafael Hertel...
O desenvolvimento de um filho único é uma coisa engraçada. Quando se tem um irmão mais velho, por exemplo, ele o ensina a jogar futebol, já que esta tarefa lhe é delegada pelo pai. Claro que durante toda a infância o menor tem que ouvir o maior falar que ele é perna de pau e tudo mais. Mas chega a horas que o mais novo é convidado pelo mais velho para jogar no seu time. Aí as provocações valem a pena. Ele vira jogador de futebol e se ouriça todo. Quando chega lá, é o último a ser escolhido para o jogo, mas pelo menos é escolhido.
Já eu, filho único, nunca fui ensinado a jogar futebol. Aí sobrava ir jogar vôlei com as meninas. Com o passar do tempo, as meninas foram chamando suas irmãs mais novas para jogar nos seus respectivos times, e eu tive que arranjar um vídeo-game.
Com isso cresci frustrado porque queria ser igual ao meu pai, um “grande” jogador que tinha participado das categorias de base de um time que até já foi campeão do campeonato catarinense. Poucas vezes, mas foi. Ele jogava comigo, mas a certa altura da vida perdeu a paciência, desistiu e acabou me dando uma bola de basquete. Procurei por todos os lados companheiros para o esporte. Infelizmente, na minha infância ninguém gostava de basquete no Brasil. Guardei em uma caixa todas os meus artigos do maldito Chicago Bulls. Voltei ao vídeo-game!
Com cerca de dez anos visitei meu primo menor, que tinha acabado de comprar uma mesa de pingue-pongue. Ele começou a se destacar no esporte e virou um campeão. Da cidade é claro, porque ninguém é campeão mundial de pingue-pongue sem ser japonês. Fiquei empolgado. Tentei bater nele só para descontar minha raiva por ele ter sido bem sucedido. Mas esqueci que Rogerinho, meu primo, tinha irmãos mais velhos. Depois disto nunca mais fui capaz de acertar a raquete na bolinha de pingue-pongue.
Pensando bem, até que Mário Bros não é um jogo tão ruim.
Cansado de me dar mal nos esportes decidi ser gordo. Aos onze anos meus colegas da sala já disputavam campeonatos estaduais de Futsal e me falavam de coisas que eu não entendia; como “ficar” com as meninas da torcida. Não me preocupei com isto, até dois meses depois quando eu “fiquei”. Achei engraçado porque a menina enquanto me acariciava fez um comentário sutil: “Nossa, você ta ficando gordo”. Isso não abalou minha auto estima, porque contanto que eu andasse com a coluna reta, não dava para perceber minha barriga. Forcei demais e ganhei escoliose.
Aos sábados recebia sempre a visita de uma amiga. A partir dos catorze anos, começou a parecer atraente para mim, de uma forma nova. “Fiquei” com ela e algo diferente aconteceu. Como não tinha irmão fui perguntar para meu professor de catequese. Ele me disse que aquilo tudo era pecado. Fui para casa rezar vinte ave-marias. Junto com a Carlinha, é claro. Algo diferente aconteceu de novo! Imediatamente comecei a rezar mais vinte ave-marias. Carlinha ficou me olhando e logo saiu da minha casa. Nunca mais falou comigo. Só fui entender o porquê da raiva dois anos depois, quando sem dicas de um irmão mais velho, frustrei sexualmente a minha primeira menina. Foi aí que voltei ao vídeo-game...
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