terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

ARTIGO

Brasil: década perdida
Ivar Hartmann


Na década de 1980 o Brasil vivia a retração da produção industrial e a queda do PIB. Grande desemprego, estagnação da economia e índices de inflação muito elevados, com as consequências: perda do poder de consumo da população, aumento da dívida externa e do déficit fiscal. O mesmo castigo quer agora os governos europeus exigir da Grécia, como condição para emprestar-lhe dinheiro que servirá, não para implementar grandes projetos de desenvolvimento, mas sim para pagar bancos internacionais que não querem ter prejuízo. Ou seja, a receita antiga do FMI. 
Para se pagar os bancos credores que manipulam governos e cobram juros e taxas ilegais a maioria da população deve sofrer e passar a viver na miséria como os brasileiros de então. A Argentina, em 2005 devia 102 bilhões de dólares. Graças à moratória decretada pelo então presidente, o falecido Néstor Kirchner, acertou pagar entre 25 a 30 centavos por dólar devido. Conseguiu reestruturar entre 70% a 80% da dívida. Um êxito mesmo para os seus piores críticos. Uma conta de US$ 102 bilhões ficou por US$ 30 bilhões.  
Uma decisão destas é a ideal para países desesperados, sem condições de pagar suas contas. Nenhum país tem amigos. Tem é interesses nacionais a serem defendidos.
A Grécia deve hoje 164% de seu PIB. O governo grego aceitou um pacote que eliminará mais de 100 mil empregos, diminuirá os salários, aposentadorias e benefícios sociais e levará o país a recessão. Para, se tudo der certo, ficar devendo, em 2020, 120% do PIB. Serão 8 anos de sofrimento para nada. 
Como sempre, ninguém fala em diminuir o número de parlamentares, ministros, apadrinhados e suas benesses. Estes continuam ganhando como se trabalhassem. Trabalham sim: para a banca internacional! A economia de um país tem muito a ver com a de uma casa: quem ficou devendo muito tem que trabalhar mais e não ficar em casa esperando novidades. Tem que acertar suas contas com os bancos, exigindo – como fazem os brasileiros hoje endividados – pagar nada de juros e honrar apenas parte do capital inicial. 
A Grécia é a Argentina de hoje. Deveria fazer o mesmo porque o futuro, se aceitar o plano, é ainda mais tenebroso. Entre dar prejuízo aos bancos internacionais ou fazer sofrer seu povo, um governo não pode pensar duas vezes. Só lutando nas ruas os gregos poderão se livrar dos sacrifícios em vão que pretendem lhe impingir.


Promotor de Justiça aposentado. Foi professor de direito nas Universidades de Cruz Alta e Novo Hamburgo e professor de história no ensino médio do RS. Envolvido com causas comunitárias, escreve semanalmente para vários jornais do país. Reside em Novo Hamburgo. Email: ivarhartmann@terra.com.br

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