quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ARTIGO

Ex-presidente Tancredo Neves e Manoel Torres

Manoel Torres - Exemplo de 
político que não existe mais
João Batista Machado


O Rio Grande do Norte perdeu recentemente a figura austera e respeitável de Manoel Torres de Araújo, um seridoense fiel às suas origens e solidário aos amigos em momentos de dificuldades, principalmente quando o arbítrio se abateu sobre o país, infelicitando a vida deles. Pessedista histórico, foi deputado estadual por três legislaturas e duas vezes prefeito de Caicó. Encerrou a vida pública como vice-prefeito daquela cidade. Juntamente com monsenhor Walfredo Gurgel e o desembargador Tomaz Salustino, eram as mais expressivas lideranças do PSD no Seridó.
Manoel Torres pertencia a um tempo em que os políticos gastavam dinheiro do próprio bolso para se eleger, sem pensar em qualquer tipo de recompensa. Cabia, ainda, aos mais abastados como ele (proprietário de usina de algodão e de concessionárias de automóveis), ajudar financeiramente correligionários modestos, visando o crescimento do partido. Na política, nunca cobrou de ninguém as despesas efetuadas em sucessivas campanhas. Sua característica marcante eram os óculos escuros que usava até mesmo em ambiente fechado. “É para o adversário não saber para onde estou olhando”, confidenciou ao amigo Manoel de Brito.
Prefeito de Caicó (duas vezes), não se conhece um ato de improbidade durante as suas gestões naquela cidade. Até os adversários reconheciam isso, em plena fase do radicalismo provinciano inconciliável. Não era um político populista. Pelo contrário, fazia da seriedade e do comportamento ético os instrumentos de captar voto. Ganhou e perdeu eleições, mas sem mudar o hábito de fazer política com decência na vida pública.
Quando, em 1960, a ala majoritária do PSD optou pela candidatura do udenista Aluízio Alves ao governo do Estado, Manoel Torres ficou ao lado dele e do monsenhor Walfredo Gurgel, que foram eleitos governador e vice numa memorável campanha. Participou ativamente da campanha de 1965, que levaria o senador Walfredo ao governo do Estado como sucessor de Aluízio. Foi o monsenhor quem lançou o empresário Manoel Torres na política como candidato a deputado estadual em 1955 pelo PSD. 
Com a extinção dos tradicionais partidos existentes pelo Ato Institucional nº 2 em 1965, o regime militar impôs o bipartidarismo criado artificialmente de cima para baixo. Aqui, o partido governista, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), foi dividido em duas facções para alojar os partidários do deputado Aluízio Alves e do senador Dinarte Mariz, com as denominações de Arena “Verde” e Arena “Vermelha”, cores símbolos das lideranças rivais abrigadas sob o mesmo teto.
Com a cassação do deputado Aluízio em 1969, através do AI-5, Manoel Torres permaneceu na Arena Verde solidário ao governador Walfredo Gurgel até sua morte em 04/11/1971, meses após deixar o governo. Em seguida, filiou-se ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro) dando nova solidez à oposição no Seridó. Com o ingresso de novos filiados, a modesta legenda oposicionista alcançou voos mais altos, consolidando prestígio político, conquistando espaços maiores e vislumbrando futuro promissor.
Naquela época, realmente existia a fidelidade partidária. Político de caráter não mudava de partido. Pelo contrário, gastava dinheiro investindo no seu crescimento com recursos próprios. Não existia dinheiro de caixa dois, prática tão comum nos dias de hoje, em que se misturam, de maneira promíscua, o público e o privado. Seu adversário, o senador Dinarte Mariz, por exemplo, gastou fortunas em campanhas dos correligionários da UDN. Em menor proporção, evidentemente, Manoel Torres fazia em favor do PSD.
Esse modelo de político não existe mais. Hoje as campanhas são financiadas por empreiteiros e organismos públicos, deformando o voto popular e prostituindo a representação no Congresso Nacional. Manoel Torres de Araújo pertencia a essa espécie em extinção. Talvez seja um dos últimos representantes daquela maneira diferenciada de fazer política. Afastou-se dela com as mãos limpas e deixou um exemplo para as novas gerações.
Jornalista. Artigo publicado na edição de hoje do Novo Jornal

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