VALENTIM CARDOSO — Conhecido por Satanás, filho de Francisco das Chagas Romão e Zulmira Belarmino Romão, moradores no sítio Putrião, então município de Caicó, ainda muito jovem tornou-se por antonomásia Satanás, terrível criminoso, um dos maiores matadores de aluguel da região.
Lenda em Caicó e em todo o Seridó, não só pela sua destacada participação na revolta do Quebra-Quilos, em 1874, quando, aos 18 anos de idade, já retalhava carne no Mercado Público, localizado onde hoje é a Praça da Liberdade, como pela fama que a partir daí conquistou como justiceiro e pela valentia que sempre demonstrou na perseguição a criminosos e bandidos, Valentim considerava-se agente da lei. Onde nem a Polícia nem a Justiça compareciam, ele, sendo chamado, resolvia.
Sempre jurou que durante toda a vida só matou uma pessoa, marginal que tentou tomar-lhe uma mulher em Natal, à noite, e quando foi no outro dia estava morto na beira da praia, com um tiro no meio da testa. À sua repetida defesa acrescentava ser mentiroso o boato segundo o qual teria envenenado o próprio pai para herdar um pedacinho de terra no Putrião.
Todas as intervenções que fez ou ajustou no mundo do crime teriam sido, sem exceção, sempre a serviço de alguém.
Ademais, a sua atividade principal por muitos anos fora a de vender e trocar armas, negocio honesto e lucrativo. Nesse ramo trabalhou mais de 20 anos, e não tem noção ou idéia de quantas armas de fogo negociou.
Nunca participou de nenhum homicídio ou de qualquer outro crime em Caicó, atendendo ao pedido feito pelo pai nesse sentido, logo depois do rumoroso caso de sedução em que se envolveu. O velho pai tinha medo de ser vingado pelos desatinos praticados pelo filho. Valentim afastou-se do Seridó e ao município de Caicó só retornou mais de 30 anos depois.
Com cinco filhos de dois casamentos, quatro permaneceram em Natal e uma filha, ao enviuvar, passou a viver em sua companhia com os dois filhos.
Ao falecer, em avençada idade, Valentim era homem pacato, que não perdia ofício religioso na Igreja Católica e cuidava dos netos com muito mais carinho do que cuidara dos próprios filhos.
Representava prova real de que as pessoas podem mudar para melhor. Quem diria que Dimas viesse a ser o único santo de quem ninguém pode duvidar de sua real entrada no céu. O primeiro e único a ser canonizado, ainda na cruz, pelo próprio Cristo!
O que teria convertido Valentim de bandido e herege em cidadão pacato e devoto? Medo da morte? Arrependimento? Catequese de algum religioso? Alguma visão?
Tudo aconteceu quando tomou conhecimento da canonização de um santo e tornou-se seu devoto. Antes de satisfazer a curiosidade de quantos o indagavam, pregava as virtudes do seu padroeiro:
MENDIGO DO COLISEU — “O santo da minha devoção não pertenceu a nenhuma ordem religiosa, era leigo e nunca se preocupou com obras sociais ou caritativas. Era apenas um místico. Talvez nem isso; digamos que era um homem piedoso. Deve estar entre os mais pobres dos santos do Céu. E sem dúvida é o mais humilde de todos. O mais miserável e o mais desprezível. Nunca vi uma efígie dele, nem nunca ouvi nenhum sacerdote pronunciar sequer o seu nome numa igreja. Nunca! Santo, continua tão escondido como viveu em Roma e nos santuários católicos da Europa. Nas ruínas do Coliseu, para dormir, e nos monturos, procurando restos de comida para se alimentar.”
E sem permitir intervenção no discurso, continuava cada vez mais entusiasmado:
“Tentou entrar em três ordens religiosas, e por todas foi recusado.
Quando descobriu que o seu destino era peregrinar, começou a percorrer santuários da Europa, tarefa que lhe consumiu alguns anos, andando a pé, sem dinheiro e sem comida, dormindo no chão, sob todas as intempéries. Certa vez um padre o mandou prender por suspeita de roubo de um cálice. De outra feita foi socorrer um ferido por bandidos numa estrada e foi acusado de ser o assaltante. Tudo enfrentava com paciência e humildade. Quantas vezes não foi enxotado por pedradas nas ruas por causa de seus andrajos e do cheiro nauseabundo que exalava.
Curou alguns doentes e, noutra ocasião, sensibilizado com a fome de alguns mendigos, milagrosamente multiplicou pães! As esmolas que recebia em dinheiro repassava para os que considerava mais necessitados do que ele.
Quando terminou suas peregrinações fixou-se em Roma. Aí é conhecido como o “Mendigo do Coliseu”. Passava o dia quase todo orando nas diversas igrejas, principalmente em Santa Maria dos Montes.
Com a saúde abalada, aceitou a internação num abrigo para velhos. Era sempre o último a chegar para receber o seu quinhão de sopa, e não raro doava-o a outro doente que estivesse precisando de mais comida.
Ninguém neste mundo foi capaz de ter um conceito tão baixo de si mesmo como ele. Ninguém foi mais pobre, paciente e humilde.
Quando morreu, aos 35 anos de idade, numa quarta-feira santa, um cardeal escreveu que a comoção popular no túmulo desse mendigo provocou um espetáculo que edificava uns e escandalizava outros. O cardeal estava do lado dos escandalizados, pois durante os quatros dias da Semana Santa não foi possível celebrar nenhuma cerimônia em Santa Maria dos Montes, tal a multidão que invadiu o templo para orar no túmulo, tocar nele ou dele retirar uma relíquia qualquer.
Na verdade foi o maior santo do seu século. Em plena época do racionalismo radical, a sua incessante oração teve o valor de um protesto divino contra os que pretendiam destruir a fé.”
E concluía o sermão perguntando a quem o ouvia:
“De quem falo? Também não sabe? Ninguém sabe! Dele só existe um retrato que um pintor de rua fez enquanto ele orava em êxtase. Nada mais. Não ficaram roupas, nem calçados e nenhuma outra lembrança material, nem mesmo os dois ou três livrinhos de orações que ele utilizava. Ficaram apenas os exemplos de suas penitências. São Bento José Labre, o Mendigo do Coliseu, o Cigano de Deus, o santo da minha devoção.”
CRIMES — Valentim era acusado de ter participado de nada menos que 72 eventos criminosos!
É claro ser inviável contar todos os crimes e arbitrariedades cometidos por Satanás ao longo de sua vida de assassino. Seria o mesmo que repetir histórias que já nenhum interesse despertam no público, porque não contêm aqueles ingredientes hediondos ou inusitados que provocam calor infernal ao crime, impondo pavor e terror a todos. Hoje já ninguém se espanta com o homicídio qualificado previsto no Código Penal. Para que chame a atenção o crime tem de estar muito acima do que possa engendrar a maldade humana comum. Satanás não era nenhum pé-rapado do banditismo. Conhecia todos os estratagemas que conduziam à cadeia e ao cemitério e, acima de tudo, a ganhar dinheiro com o exercício da crueldade e do banditismo sem morrer nem ser preso.
Valentim, na verdade, foi um cruel bandido, matador sem dó nem piedade. A todos atemorizava, pois no seu tempo de banditismo ninguém teria coragem suficiente para denunciá-lo. Era muito mais seguro ser seu amigo. Na próxima semana relatarei alguns dos mais bárbaros crimes desse gigante dinossauro seridoense, devorador implacável de vidas humanas. Para que se possa avaliar o rigor do presente resumo, informo que as anotações do rábula José Altino Pereira a respeito da folha corrida desse bandido, que certamente ele conhecia por completo, contêm 150 páginas de papel almaço manuscritas, e, ainda assim tão longas, o velho rábula alerta tratar-se apenas de apertada síntese!


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