Tony Bellotto
Embora todo mundo a experimente uma vez ou outra, a traição é uma das sensações mais ásperas e amargas que se pode vivenciar.
A traição amorosa é talvez a maior responsável pelas dores na alma (no cotovelo e nos cornos também) que acometem seres humanos mundo afora. Nem a enxaqueca e a popular dor nas costas conseguem ser tão comuns e tão essencialmente humanas quanto uma boa traição. Um sabor que todos conhecemos, mas evitamos com a determinação de vampiros que correm à visão de cabeças de alho. Apesar de amarga, e talvez por isso mesmo, a traição sempre rendeu grandes personagens e excelentes tramas.
Nós, homens, do alto de nossa imensurável arrogância masculina, criamos ao longo da História personagens femininas que se destacam por trair os homens: Eva, Dalila, Madame Bovary, Capitu…e quem são os grandes “traidores” masculinos da história e da literatura: Marquês de Sade? Don Juan? Dorian Gray? Nathan Zuckerman? Não, os adúlteros masculinos não estão à altura de seus pares femininos.
Se o sabor da traição amorosa é aguda como o sabor do alho, o que dizer da traição de um amigo? Nesse caso, dando continuidade à tradição misógina que nos orienta, o maior “amigo traidor” da humanidade, o popular Traíra-Mor, é obviamente um homem, Judas Iscariotes, o amigo da onça que traiu Jesus Cristo, entregando-o à sanha dos soldados romanos.
No Brasil temos dois outros grandes exemplos: Joaquim Silvério dos Reis, o homem que entregou Tiradentes, e o menos conhecido Calabar, o senhor de engenho pernambucano que no século XVII traiu os colonizadores portugueses, seus antigos aliados, virando a casaca para apoiar os invasores holandeses.
O que comprova que, na traição, assim como em quase tudo na vida, há sempre duas versões: a do traidor e a do traído. Esta, invariavelmente mais amarga que aquela.
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