domingo, 22 de janeiro de 2012

SAUDADE

Tu és fascinação, Elis
 João da Mata


Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.
Agora o braço é uma linha, um traço, / um rastro espelhado e brilhante.
E todas as figuras são assim: / desenhos de luz, agrupamentos de pontos,
de partículas, um quadro de impulsos, / um processamento de sinais.
E assim – dizem – recontam a vida. / Agora retiram de mim a cobertura de carne, escorrem todo o sangue, afinam os ossos / em fios luminosos e aí estou
pelo salão, pelas casas, pelas cidades, / parecida comigo. / Um rascunho,
uma forma nebulosa feita de luz e sombra / como uma estrela. Agora eu sou uma estrela. Elis Regina
1982
Há trinta anos ela se encantava. Perdíamos a nossa voz. A voz que encantou e passou feito um furacão como bem disse a sua biógrafa Regina Echeveria. Começou cantando boleros e depois passou a cantar a nossa mais autentica música BRASILEIRA. Cantando o Bêbado e o Equilibrista ela cantava o nosso hino em tempos de abertura politica. O Brasil sonhava com a volta do irmão do Henfil e na corda bamba passamos feito um equilibrista por décadas DE EXCEÇÃO E TORTURA. Ela era a Pimenta que fazia tremer os alicerces do conformismo. Linda, pequena e louca cantou como ninguém. Foi a maior cantora do Brasil. Revelou talentos que depois iriam brilhar na constelação dos maiores astros da canção brasileira. Cantou Fagner e Belchior em início de carreira. Milton Nascimento, João Bosco e Renato Teixeira tiveram o privilégio de ouvir suas canções interpretadas por essa voz única. Arrebatadora.
Em 1982 quando Elis faleceu aos 36 anos de idade, eu não tinha televisão. Não fazia questão. Comprei uma para ouvir os especiais sobre a sua meteórica carreira. Assisti alguns de seus shows. Inesquecíveis. Depois dela ninguém com mais autenticidade e força. Ela é síntese perfeita maior de todas as cantoras do Brasil. Como numa brincadeira DE RODA DANÇOU CIRANDA. Como num bolero de satã ela penetrou no céu da nossa música que nunca mais seria a mesma. Com Jair Rodrigues mostrou muita bossa. Com Tom Jobim gravou um dos maiores discos da MPB, Elis e Tom (1974). Deitou e rolou cantando quaquaraquaquá de Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro.
Quando Elis morreu há trinta anos, perguntávamo-nos meus Deus, como? Ficamos órfãos. Vida, que vida? Quem matou Elis, era a pergunta. E a resposta que não podia calar; FOMOS NÓS. Não, Elis jamais morreu e será sempre a porta-voz de uma época que tivemos o privilégio de viver e ouvir essa voz transversal de todos os tempos. Como nossos pais, caminhamos.
Como todas as mulheres Elis cantou a canção de Ana Terra e Joyce: ESSA MULHER.
De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah. como essa santa não se esquece de pedir pelas mulheres
Pelos filhos, pelo pão
Depois sorri, meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo
Que a faz assim, feliz
De tardezinha essas menina se namora
Se enfeita se decora, sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia qualquer dia
Entender de ser feliz
De madrugada essa mulher faz tanto estrago
Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ah, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece
Nessa boca, nesse chão
Depois parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo
Que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora
Em que esbarro toda hora
No espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural.

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