Entre 1910 e 1912 Idméia viveu com Rosemiro Rosendo Linhares, engenheiro paulista, de quem não teve filho.
Só muito depois de desfeito o relacionamento, Idméia soube que rumo tinha tomado o ex-companheiro. Rosemiro era casado em Belo Horizonte com uma colega de faculdade, Adriana de Oliveira Pinto, ex-amante de um advogado chamado Rodrigo Revoredo de Sousa. Fora abandonada pelo amante quando este notou que ela continuava apaixonada pelo ex-marido, com o qual voltaria a viver a qualquer momento que ele quisesse.
Fernando Pimenta de Carvalho fora o primeiro marido de Adriana que a deixou ao constatar que ela tinha um amante de quem estaria grávida. Fernando com dois capangas seqüestraram Rodrigo, trouxeram-no para a residência onde a mulher se encontrava, juntaram os dois num quarto e aí aplicaram nele forte clister, ao mesmo tempo em que pepinaram o cabelo de Adriana. Em seguida amaram os dois um no outro, nus, e deram-lhes uma surra com tranças de couro.
Não precisa dizer quanto os dois apanharam e gritaram e que Rodrigo quanto mais apanhava mais se esvaia em dejetos expelidos em conseqüência do clister.
Fernando foi morar no interior da Bahia, onde fixou residência definitiva. Rodrigo que durante a surra muitas vezes ouviu a ameaça de que se não desaparecesse de Minas, imediatamente, iria ser pego novamente e desta vez castrado, não contou conversa, ao se recuperar, mudou-se para o Rio de Janeiro.
Assim que largou Idméia, Rosemiro voltou a conviver com Adriana e os filhos, para os quais tinha transferido todos os seus bens por ocasião da separação. Não deu certo a reconciliação, um amigo e vizinho lhe contou tudo o que vinha acontecendo. Sempre que Rosemiro viajava, ou até mesmo quando não viajava, mas passava o dia fora, cuidando de suas obras e outros negócios, a mulher trazia o amante para dentro de casa. Fazia isso abertamente, sem pedir reservas a ninguém, como se estivesse praticando a coisa mais normal do mundo. Acrescentou, ademais, que a traição vinha de longe. Desde que tinham vindo morar ali era assim. Quando Rosemiro saía o amante chegava!
Rosemiro ficou como louco, mas conseguiu disfarçar. Em casa disse a Adriana que ia viajar. Passaria fora uns três ou quatro dias. Acampanou estrategicamente na casa do amigo, que o ajudou a espionar a mulher. No primeiro dia, nada de anormal.
No segundo dia, o amante veio jantar com Adriana. Ficou para dormir com ela. Rosemiro tremia de ódio quando arrombou a porta do quarto e pegou os dois fazendo sexo. Já estava de revólver em punho. Atirou primeiro no homem, depois em Adriana. Quase que ao mesmo tempo matou os dois.
O amante era Rodrigo Revoredo de Sousa!
Preso, Rosemiro contou a sua história, sem nada omitir.
Na véspera do júri, suicidou-se na cadeia, enforcado com os cordões da rede em que dormia!
Quando Idméia soube dessa história chorou de tristeza e raiva ao mesmo tempo. De tristeza e dor porque, afastados os seus impulsos temperamentais, Rosemiro não merecia o fim trágico que teve. E por não entende como se deixara enganar por uma mulher tão sem escrúpulos e de mau caráter como essa Adriana. Mas sabia melhor do que ninguém que, dominado pela paixão, não existe homem sabido nem experiente.
Sentia raiva por ter sido enganada por ele. Também inebriada pela paixão, nunca sequer suspeitara que Rosemiro fosse casado.
O velho Ramiro Reis, por testamento, deixou metade dos bens para o neto, Ramiro Reis Marchi. Uma fortuna em dinheiro, prédios urbanos, propriedades rurais e participação em diversas empresas em Portugal. A outra metade dos bens ficou para Ramiro Reis, solteirão, filho único do falecido.
Com a morte do pai, Ramiro resolveu casar-se. Comentavam que Idméia era a única mulher com quem ele tinha mantido relações. Também muito rico, porque quando morreu a mãe ficara com a metade do patrimônio dos pais, acompanhava de longe, discretamente, a vida da mãe do seu único filho. E concluiu, se ela concordasse, casaria de papel passado e tudo o mais que fosse preciso.
Veio ao Rio, pediu a mão de Idméia, casaram-se em junho de 1915 e foram morar em Lisboa.
Do casal nasceram Pedro e Paulo, o primeiro em abril de 1916 e o segundo em dezembro de 1917. Foi esse, sem dúvida, o período de vida mais tranqüilo e romântico de Idméia. Lisboa foi o seu paraíso no mundo; Portugal, a pátria da sua felicidade
A joalharia Mundo Novo fora vendida a Rui Vergásio Cerqueira, que nunca mais ousou casar. E nunca se desfizera da amizade de Idméia, pessoa que admirava com o máximo respeito e carinho.
Ramiro Reis morreu em agosto de 1919, vítima da chamada Gripe Espanhola que assolou o mundo ao término da primeira guerra mundial. Idméia também quase morria de dor e desespero pela perda do marido, realmente o único grande e verdadeiro amor de sua vida.
Com o intuito de afastar-se por algum tempo do local do nefasto acontecimento resolveu vir visitar os pais e parentes. Chegou ao Brasil no fim do ano e imediatamente, com os filhos, viajou para Natal.
Com 37 anos de idade, alguns diziam que até mais bonita do que aos 15 anos quando morava na Vila do Príncipe, Idméia, viúva, mãe de quatro filhos e muito rica, veio a Caicó.
Tinha um único objetivo: solicitar de volta o envelope que havia mais de 20 anos deixara em poder de Marcos Bulcont Pereira, seu primeiro sonho de amor! Qual teria sido o destino dele? A intuição de José Bartolomeu da Silva previra o destino dela, de Marcos, ou o destino dos dois?
É o que veremos no próximo domingo, postagem final dessa esquecida e tumultuada história da vida de uma mulher nascida em terras seridoenses, mas com sangue italiano.
História parecida, nos anais da tradição caicoense, só mesmo a de Clara Maria dos Reis, que brevemente virá a público neste espaço.