Logo que comecei a ajudar meu pai na bodega em 1947, aos 12 anos de idade, passei a admirar aquele homem moreno, calmo, de fala mansa e arrastada, que sempre vinha comprar cola, linha, agulhas, bloco de papel de carta, envelopes e outras miudezas. Era o fotógrafo a quem minha mãe todos os anos nos levava para as fotos da família. José Ezelino da Costa, um autêntico gentleman, sempre bem humorado, era muito atencioso fosse quem fosse que com ele tratasse. Chamava-me Chiquinho e certa vez me perguntou se ainda tínhamos a primeira foto que eu, criancinha de berço, levado por minha mãe, havia tirado no estúdio dele. Jamais poderia imaginar que 75 anos depois a mesma foto, ainda em perfeito estado, continuaria circulando no mundo todo nas quase que infinitas dimensões do fantástico espaço cibernético!
Ao contrário do que alguns autores novos têm escrito, ou insinuam, Zé Ezelino, queridíssimo por todos os seus conterrâneos, jamais enfrentou na sua terra qualquer problema de discriminação por conta da cor da pele ou por qualquer outro motivo.
Grande artista, reconhecido como homem de superior índole, caráter e inteligência, era por todos admirado e aplaudido. Caprichoso no trabalho, nunca ninguém encontrou motivos para botar defeito numa fotografia sua. Não foi um mero mercenário e sim um amante da arte que exercia
Anualmente viajava de férias para Recife ou para o Rio de Janeiro, de onde trazia as últimas novidades para o seu ateliê fotográfico. Não conheci ninguém em Caicó dessa época, que tirasse férias anualmente e viajasse para a Capital da República ou quando menos para uma cidade do porte de Recife. Nesse particular, José Ezelino era um bem-afortunado profissional autônomo, podia viver à fidalga, numa cidade de pouquíssimas oportunidades de trabalho.
Nunca lhe faltava trabalho. Disso sou testemunha ocular, pois o seu ateliê ficava quase em frente à bodega de meu pai no Mercado Público. A maioria de sua clientela no estúdio era composta de pessoas de classe média acima. Os cenários que preparava para as fotos ainda hoje são elogiados pelos especialistas. Controlava com perfeição a questão da luminosidade no ambiente. No seu tempo Caicó não dispunha de energia elétrica com regularidade, nem os equipamentos utilizados pelos fotógrafos ajudavam muito nesse sentido. Uma cortina no teto envidraçado da sala de tomada de fotos ajustava a luminosidade do ambiente!
É verdade que nesse tempo eu não entendia nada de fotografia, mas a pessoa humana e decente de Zé Ezelino me ficou na memória não só por esse lado de sua vocação artística, mas, talvez acima de tudo, por conta dos seus ensaios musicais no próprio estúdio onde trabalhava como fotógrafo.
Quase que diariamente eu ficava ouvindo, acho que clarinete, Zé Ezelino ensaiar por horas e horas as músicas do seu repertório. Soava linda aquela musicalidade isolada em plena tarde quente da Caicó silenciosa, como se estivesse a escutar o seu fotógrafo maior a devanear para suas musas.
Como, neste espaço, não posso registrar musicalmente a lembrança dos sons que em mim viraram saudade, limito-me à fotografia que enviei para o blog. Mas, para homenagear também o músico Zé Ezelino, nada me impede de colocá-los em pé de igualdade, a três, entre outros, dos grandes instrumentalistas brasileiros que admiro. Zé Ezelino representa para mim e, não duvido, para todos nós do seu tempo em Caicó, o que Abel Ferreira, Paulo Moura e Severino Araújo representam para o Brasil.
Outro grande artista caicoense da mesma época de José Ezelino da Costa foi o padre Aderbal Leitão Vilar, grande violinista e grande orador, meu professor de canto orfeônico e matemática no Ginásio Diocesano Seridoense.
Como Zé Ezelino, era quase meu vizinho, não na Praça do Mercado, mas na Praça da Liberdade, onde morávamos. Foi o Pároco da Igreja de Sant'Ana de 1946 a 1950.
Como era delicioso ouvi-lo tocar Danúbio Azul, Velho Realejo, Tardes de Lindóia, Saudade de Matão, Ave Maria e dezenas de outras preciosidades clássicas e populares que interpretava ao violino com a alma e o coração. Tal como Zé Ezelino, o padre Aderbal Vilar era um grande músico, que ficou para sempre gravado na emoção de quem, de longe, o ouviu tocar belas valsas nas noites em que a lua iluminava a Praça da Liberdade. De longe sim, porque apenas ouvíamos a música que vinha do quarto dele, na casa da família, ao nascente da pracinha.
Tudo isso era muito simples e muito romântico. Música ao pino do meio-dia alegrando o mercado. E nas noites de luar, música iluminando a pracinha!
Mas, até hoje, em Caicó, ninguém superou o padre Aderbal Vilar na oratória. E ninguém antes dele foi tão eloqüente e culto. Dominava os auditórios com segura mestria e pleno conhecimento de todas as técnicas da arte de falar em público. Parecia até que as multidões que superlotavam a igreja estavam ali não para rezar, mas para ouvi-lo falar.
Seus sermões, homilias ou qualquer pregação sua repercutiam no público ouvinte como hoje em dia os fantásticos e mais bem montados shows artísticos da televisão. As pregações das novenas no mês de maio comoviam profundamente. Confesso que não perdia nenhuma, só para ouvi-lo falar. Assim, assimilei um pouquinho da arte em que ele era insuperável.
Depois que, ainda por ele motivado, tentei compreender melhor essa nobre arte em que Cícero e César foram craques imbatíveis na antiga Roma, posso afirmar, com orgulho do elevado padrão educacional caicoense daquele tempo, que Aderbal Leitão Vilar, sem tirar nem pôr, foi, na oratória, o padre Antônio Vieira de Caicó. E na música, outro grande artista, romântico como José Ezelino da Costa.