Tudo! Os passos procuram por tudo. Cada som, cada movimento, cada cheiro, cada toque. Tudo. Palavra cheia, abundante, mas traiçoeira. Muitos a buscaram e foram enganados pela ilusão de que seriam completos. Acharam sensações, mas perderam-se nas migalhas da incompletude.
Nossas roupas rasgaram-se, nossas bocas feriram-se, nossos cabelos caíram, e ainda buscamos o tudo. No fundo, não admitimos que ele não existe e que é na miséria que descobrimos a alegria de apenas ser. Na miséria, achamos o essencial e abandonamos a teimosa ideia de que nossas frustrações antigas seriam curadas por efêmeras sensações de plenitude.
Drogas, sexo, prazer, conforto, religiosidade, causas políticas. Não obstante serem reais, não são plenas. São subterfúgios, atalhos, para a verdadeira realidade. Até podem ser justas, mas não definitivas.
O que somos? Somos o chão que pisamos, somos o cheiro que nos acompanha desde que nascemos, somos os traços físicos que herdamos, somos o que adoramos, somos o horizonte para onde nossos olhos miram. Somos cacos juntando-se um a um, somos corações de pedras transformando-se em corações quentes e macios. Somos Adão, somos Eva, somos o sopro do Verbo enchendo o que é vazio, em meio a uma caminhada sempre incompleta, mas cheia de significado. Somos o hoje e o amanhã, meio vazios, meio cheios.
O tudo não é um destino que buscamos. É uma dádiva que aceitamos.